SINÔNIMO DE PISTA DE CORRIDA


No início dos anos 1970, minha ingenuidade de criança fazia acreditar em alguns sinônimos: praia correspondia a Santos, cidade a centro de São Paulo e pista de corrida a Interlagos.

   Fui crescendo e comecei a perceber que o mundo era muito maior e existiam outras correspondências, algumas até mais interessantes do que aquelas que acreditava serem as únicas, porém aquele sinônimo de pista de corrida foi ficando cada vez mais sólido à medida que assistia os duelos que ali aconteciam, os primeiros deles apenas pela TV.

Em 1980, já adolescente, fui conhecer ao vivo aquele templo tão sagrado com alguns amigos tão jovens quanto eu. Era uma corrida de motocicletas, neste mesmo ano fui com a mesma turma à segunda temporada de uma nova categoria formada apenas por Opala, intitulada Stock Car.

   O tempo passou e a partir de 1985 o Autódromo de Interlagos adotou oficialmente o nome Autódromo José Carlos Pace, em homenagem ao piloto brasileiro falecido em 1977, mas com a intimidade de um amigo, ainda o chamava simplesmente de Interlagos.

   Agora as visitas a Interlagos eram realizadas em companhia de meu filho, juntos vimos a Fórmula Truck, Mil Milhas, várias gerações de Stock Cars, etc, porém aquele “amigo” ainda guardava segredos e nossas visitas não iam muito além das arquibancadas, ocasionalmente o Paddock, que era muito mais divertido, mas havia uma área proibida, reservada às estrelas do espetáculo, algumas delas eternizadas como Chico Landi, Emerson, Pace, Piquet e Senna, além de várias outras internacionais.

Não havia dúvidas, naquele asfalto, naquela área, algo de muito especial existia, o que justificava ser tão reservada assim.

Dizem que as oportunidades surgem quando menos esperamos e foi exatamente o que aconteceu um dia quando fazia a travessia do canal Ilhabela / São Sebastião e recebi uma mensagem do amigo Felipe me convidando para um passeio pela pista de Interlagos que seria realizado no dia 04 de julho de 2021. Não pude acreditar, exatamente no dia anterior havia comentado com minha esposa sobre o desejo de um dia dar uma volta com meu Del Rey pelo traçado da pista.

   Só não dei certeza naquele momento porque queria compartilhar com meu filho aquela experiência, mas não tive a mínima dificuldade de convencê-lo e logo inscrevemos o Del Rey para aquele tão sonhado momento.

   O evento era organizado pelo Clube do Fusca Sabará, que além dos besouros, democraticamente admitia a participação de veículos de outras marcas desde que tivessem mais de 30 anos de fabricação, o que habilitava o Del Rey que já tinha 36 anos.

   O Clube do Fusca Sabará existe desde 2016 e o mais legal é que os move, além dos Fusca, são as ações sociais e tudo o que arrecadam, tanto em dinheiro quanto em doações é para benefício dos necessitados.

   Nosso amigo Felipe participaria com seu Opala 1975.

Chegou o grande dia e partimos com o Del Rey para o templo sagrado, agora com a certeza de que desta vez iríamos além das arquibancadas e dos boxes.

   O tempo ajudou e apesar do frio do mês de julho, o sol brilhava bastante.

   A boa relação custo/benefício fez com que muitas pessoas aproveitassem a oportunidade e uma fila quilométrica nos aguardava antes do portão de ingresso ao autódromo, mas longe de nos chatearmos decidimos relaxar e fomos vagarosamente avançando até atravessarmos o portão 7 do Autódromo José Carlos Pace e entrarmos no túnel sob a pista onde logo queríamos estar.

   Mais alguns minutos para a “organização” dos inúmeros carros (dizem ter sido mais de mil) e fomos nos alinhando no pátio atrás dos boxes, onde o Del Rey ganharia um elegante adesivo no para-brisas que o liberaria para entrar na pista.

  O grupo era formado por uma quantidade esmagadora de Fusca (vide o clube organizador do evento), muitos Opala e apenas mais dois carros da Ford além de nosso Del Rey, o que nos garantia certa exclusividade.

Enquanto nossos carros se reuniam atrás dos boxes, algumas provas aconteciam na pista e só após terminadas, poderíamos iniciar o tão esperado trajeto.

   Terminadas as provas, alguns grupos foram sendo organizados para entrar na pista por volta das 16h:30, mas só às 17h40, quando já começava a escurecer chegou a nossa vez e os velhos, mas ainda muito eficientes faróis Arteb do Del Rey tiveram que ser ligados, adicionando ao momento um charme de prova noturna.

   O clima era de apreensão, o Opala do Felipe ao nosso lado e todas as câmeras possíveis a postos, só no Del Rey três delas estavam prontas para os cliques.

   Entramos já no meio do circuito, próximos à Ferradura, contornamos a Laranja, Pinheirinho e Bico de Pato para fazermos o Mergulho e a Junção. Partimos para a Subida dos Boxes e coloque “subida” aí, impressionante como a realidade é diferente da observação que se tem das arquibancadas. Com o Del Rey com lotação total, tive que reduzir para quarta marcha e acelerar forte para acompanhar o comboio, alguns dos carros com “pilotos” empolgados um tanto demais, esqueciam que aquilo era só um passeio.

   Na Reta dos Boxes foi o momento que mais me senti realmente dentro daquele circuito. Local que tantas vezes nos emocionamos vendo as largadas de inúmeras categorias e agora estávamos lá, no sentido inverso da visão, no exato ângulo que tantas lendas tiveram o privilégio de nos observar. O local poderia ser o mesmo, mas podem acreditar o ângulo de visão faz toda a diferença.

   No final da reta o “S” do Senna, oficialmente “Curva Chico Landi”, que tem o “S” ligando a reta à curva do Sol, proposta feita pelo próprio Ayrton durante a reforma do novo traçado.


Fôlego no motor CHT do Del Rey na Reta Oposta, Subida do Lago e assim concluímos todo o traçado. 

Fôlego no motor CHT do Del Rey na Reta Oposta, Subida do Lago e assim concluímos todo o traçado. 

   Meu sonho de percorrer aquela pista, adiado por tantos anos, havia sido realizado e satisfeitos, voltamos todos para casa, cheios de fotografias para confirmar o feito e que agora compartilho aqui com os leitores de AutoClassic.

   No mês seguinte, muito mais cedo do que imaginava, uma nova edição do passeio seria realizada e desta vez resolvemos inscrever nossa Belina Rota do Asfalto, que seria conduzida pelo Rapha.

Um dia antes, no sábado, eu estaria trabalhando com a Belina em uma pedreira, na cidade de Bragança Paulista e mal tivemos tempo de retirar todo aquele pó de rocha fragmentada sobre a carroceria, para que ela atravessasse decentemente as curvas e retas percorridas pelo irmão mais velho no mês anterior.

   Seguimos o caminho tantas vezes percorrido, agora com a segurança de quem conhecia o autódromo em sua parte mais íntima, e encontramos o mesmo Portão 7, aberto mas sem filas, o que nos vez pensar que algo de errado poderia estar acontecendo, mas incompreensivelmente uma quantidade de carros bem menor (em torno de 1/3 da edição anterior) estava presente, o que fez o evento ficar bem mais agradável, além de uma organização muito melhor, assim a Belina ganhou o seu adesivo de ingresso à pista, com um dígito a mais do que o do Del Rey.

   Outro bônus que ganhamos foi o acesso aos boxes, de onde pudemos assistir três baterias das categorias Copa Opala 4.100, Clássicos e Track Day.

   Desta vez conseguimos entrar na pista bem mais cedo, às 16h:30min, com toda a luz do dia a nosso favor, ainda assim o clima estava bem frio, acentuado pela área aberta do autódromo. Como todo proprietário de carros movidos a etanol nos preocupamos com a regularidade do funcionamento do motor naquela temperatura, mas o sistema de ignição Gauss que havíamos instalado recentemente mostrou a que veio e o funcionamento foi perfeito por todo o traçado.

   O Rapha teve o prazer de conduzir a Belina não só por uma volta no circuito como eu fiz, mas nada menos que quatro voltas, com direito a uma parada para fotos logo após o “S” do Senna.

Nossos parabéns ao Fusca Clube Sabará e aos dirigentes do Autódromo José Carlos Pace, por propiciarem momentos tão especiais e de forma tão acessível aos participantes do passeio que estampavam em seus rostos sorrisos muito maiores do que os que costumamos ver em eventos antigomobilistas estáticos, onde os carros ficam parados e as pessoas circulam entre eles, podem ter a certeza de que assim é muito mais divertido.

 

Saudações “Racing” e até a próxima coluna

Wagner Coronado
São Paulo – Brasil

1 Comment

  1. Leandro
    11 de agosto de 2021
    Responder

    Muito legal, parabéns e obrigado por dividir esta experiência conosco…

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