Com esta intimidadora premissa de seu proprietário, começamos a reconstrução de toda a parte suspensa da Scala Guia 1986, ou simplesmente Belinão, como carinhosamente o proprietário gosta de chamar o carro adquirido 0 Km pelo pai e que tantos momentos bons proporcionou à toda sua família.

   Reviver cenas a bordo do carro querido, é um dos maiores prazeres que o amante do automóvel antigo pode ter, mas para alguns, isto pode ser pouco.

   Por que além de retornar a lugares já visitados, também não ir a outros ainda mais exóticos e distantes com o mesmo carro que trouxe tão boas recordações?

   Mas sejamos objetivos, o carro em referência é uma máquina que hoje acumula muitos quilômetros e já não tem mais a mesma confiabilidade.

   Mas quem foi que disse esta besteira?

   A solução de todo desejo é fazer a razão acompanhar a decisão tomada pelo coração.

   Portanto, vamos à etapa da razão.

   Sem medo de economizar esforços, iniciamos a desmontagem completa de todas as partes suspensas do Belinão. Neste momento a suspensão e freios eram o foco de nosso trabalho.

    Saíram bandejas, amortecedores, molas, freios, eixos, rolamentos, tudo.

   Com exceção dos eixos, todos os componentes, mesmo aqueles que apresentavam condições de rodar ainda uns bons quilômetros, foram preventivamente trocados por novos para garantir um conjunto com a durabilidade dentro da expectativa que as desejadas grandes viagens poderiam exigir.

   Como em toda manutenção que se preze, limpeza é a palavra de ordem. Sem ela, fica impossível visualizar a integridade da estrutura e de nada adianta um investimento tão alto em peças novas, se a estrutura do carro não estiver íntegra. Seria como construir uma linda casa sobre alicerces de consistência duvidosa.

   E lá estavam antigos consertos nas longarinas, que cumpriram sua função por todos os anos que ali estiveram, mas incomodavam o dono e a nós, que temos fixação por sólidas estruturas, obsessão adquirida na profissão voltada à soldagem.

   Esmerilhadeira à mão e lá se foram os antigos remendos até onde a vista alcançava. Para identificar os defeitos que poderiam ir além de nossa visão, realizamos um providencial ensaio de líquido penetrante, também oriundo das neuroses da profissão.

O ensaio de líquido penetrante, já descrito em AutoClassic em artigo anterior com o nosso Del Rey como protagonista, consiste de um teste para avaliação de pequenas fissuras, mas que podem perfeitamente ser a causa de uma ruptura de estrutura ou até mesmo de um dos eixos de um automóvel castigado por milhares de quilômetros de estradas mau pavimentadas como as nossas .

Ensaio e Líquido Penetrante. A região vermelha indica as falhas.

   O Líquido Penetrante, ou simplesmente LP, nada mais é do que uma fino líquido de cor vermelha que é absorvido pelas possíveis fissuras que são reveladas através de uma reação química. Ele é um ensaio muito utilizado pelos fabricantes de estruturas soldadas, mas pouco lembrado pelos profissionais da manutenção automotiva.

   Após toda a eliminação das falhas, foi aplicada a soldagem respeitando criteriosamente os parâmetros que o processo e o material de base exigiram.

Nas pontas dos eixos, o mesmo ensaio de LP foi aplicado.

   Agora sim, com a estrutura íntegra e absolutamente limpa, os novos componentes, um a um foram tomando seu espaço no Belinão.

   Algumas providenciais viagens foram realizadas após todo o trabalho, acumulando aproximadamente 1.000 Kms e o Belinão retornou à oficina da Rota do Asfalto para um reaperto de componentes e uma avaliação geral.

Componentes montados em uma estrutura reforçada.

   Com a confiabilidade de um carro semi-novo, apesar de seus mais de 30 anos de serviços prestados, o Belinão seguirá firme e forte até Campinas, Patagônia ou seja lá onde for que o feliz proprietário decidir.

Até a próxima coluna

Wagner Coronado

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