Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas: o renascimento


Para nós antigomobilistas brasileiros, a figura de Roberto Lee tem o mesmo significado de Santos Dummont para aviação mundial. Enquanto Dummont inventou o avião com propulsão motorizada e deu o primeiro vôo sem a necessidade de uma catapulta (foi com uma catapulta que os irmãos Wright fizeram o primeiro vôo na história, pouquíssimo tempo antes de Dummont), Roberto Eduardo Lee inaugurou o que hoje conhecemos como antigomobilismo, indo contra o simples colecionismo de Eduardo Matarazzo, que tem o mérito de ser o pioneiro no Brasil (resgatou automóveis, então velhos, e transformou-os em objetos de coleção). Lee foi além de Matarazzo: Com o hobby, ele uniu pessoas e criou basicamente tudo o que hoje representa um antigomobilista. Não basta apenas colecionar automóveis: o antigomobilismo reza que devemos coloca-los em passeios, pesquisarmos sobre suas histórias e unirmos pessoas em pró de um bem comum, que é manter a história do automóvel viva.

Destarte tal importância de Roberto Lee, sua figura ficou eternizada pelo seu marco maior em vida: A criação do Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, no pequeno munícipio de Caçapava, interior de São Paulo. Foi lá onde os carros de Lee atingiram a fama internacional – foi também onde muitos automóveis fadados ao esquecimento ganharam uma sobrevida.

Tempos difíceis

Com a morte de Roberto Lee, em 1975, o museu pararia no tempo. Primeiramente, porque não haveria novidades no acervo, enquanto muitos automóveis de Lee deixariam de ser restaurados ou sumiriam nas oficinas onde estavam em restauração. Outro fator a se lamentar ficou por conta das retiradas de duas grandes peças importantes do acervo, ocorridas entre 1980 e 1981: Um raro Renault tipo AX de 1906 foi devolvido à sua família pelo fim de comodato, enquanto o Rolls Royce Silver Ghost (encarroçado em 1921 no Brasil) foi vendido pela família do dono original, já que a peça também estava no museu em comodato.

Mas o golpe fatal se iniciou em 1987: 18 automóveis que estavam no nome de Roberto Lee foram vendidos pelas herdeiras, enquanto muitos outros automóveis simplesmente sumiriam naquela mesma época, culminando no fechamento definitivo do museu em 1993.

Até 2010, todo este acervo sofreria com a ação de vândalos e bandidos, que roubaram peças e até mesmo automóveis inteiros do galpão onde ficavam os automóveis para restauração. Foi nesta época que alguns carros que ainda estavam em comodato foram retirados por seus proprietários, que temiam maiores perdas a eles, dado o abandono do museu. Restariam apenas 15 carros no salão principal e mais 25 carros no galpão de restauração, porém em estado de conservação muito pior do que aquele apresentado nos anos oitenta: eles foram totalmente vandalizados e destruídos, já que aguardaram em vão suas restaurações durante 35 anos.

O Renascimento

Em 2010, após longa negociação que se arrastava desde 2002, a então administração da Prefeitura Municipal de Caçapava conseguiu a doação dos 40 carros do acervo, mediante a assinatura da própria filha de Roberto Lee. Não obstante, a então prefeitura apenas guardou os automóveis em local seguro e nada mais fez.

Em 2013, já com a terceira administração desde a iniciativa realizada em 2002, as coisas começam a acontecer com a troca do coordenador do museu: A nova equipe é comandada por Marcelo Bellato, que desde 2010 acompanhou a retirada dos veículos e fez bastantes contatos com pessoas dispostas a resgatar o acervo. Doravante, não havia deferimento e autorização da antiga administração para realização de nenhum projeto, o que acabou por acontecer apenas em janeiro de 2013.

Vários automóveis foram colocados para funcionar (Packard 1932, Buick 1938, Talbot 1926, Cadillac 1929 e Tucker Torpedo 1948), enquanto um Buick 1941 recebe uma restauração na oficina “Última Chance”, em São Paulo. Vários antigomobilistas (inclusive quem vos escreve) também tomaram iniciativa, doando peças ou literaturas para recuperação dos carros. O famoso Tucker Torpedo jamais é o mesmo daquele encontrado há anos atrás, pois já ganhou um motor de Cadillac (exatamente como estava no dia em que Lee o comprou!), recebeu o farol central, teve calotas adaptadas e ganhou uma “levantada” em seu visual, estando em aparência muito melhor do que estava.

Outros automóveis, como as Cadillacs, já receberam várias peças que foram subtraídas e encontradas por vários antigomobilistas que estão nas pistas das peças subtraídas (até mesmo o Willys Whippet, hoje em Brasília, recebeu de volta seus faróis que já estão no devido lugar, após serem entregues em mãos ao Dr. Nasser).

O Festival Roberto Lee 2013

Em agosto, comemorando os 50 anos do Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas, foi realizada a segunda edição do Festival Roberto Lee. Muito melhor do que a primeira, esta edição reuniu automóveis de todas as regiões do Estado de São Paulo, com belíssimas peças.

De São Paulo capital, foram peças raras, como o Rolls Royce Phantom I carroceria Brewster All Weather Town Car ano 1928 (“Best in the Show” do Encontro Paulista em Águas de Lindóia neste ano), um Bentley de 1955 e um Ford Fairlane 500 conversível de 1966; De Taubaté, foram duas belíssimas Cadillacs series 75 Fleetwood (duas limousines: uma de 1938 e outra de 1941), um Ford DeLuxe Cabriolet de 1937 e um Ford Thunderbird de 1956; De Mogi, um raríssimo Hudson Commodore Coupe de 1947, um belíssimo Mercury de 1959 e uma Cadillac Series 62 sedã de 1951; dentre outros.

A idéia do Sr. Bellato é de, nos próximos anos, só serem aceitos automóveis escolhidos a dedo por um conselho composto por colecionadores dos principais clubes brasileiros, já que neste ano foram vários antigomobilistas interessados em expor suas peças, o que deve aumentar o nível de exigência para os anos seguintes. Para tal, a ideia é de haver, até mesmo, um Concurso de Elegância, aos moldes daqueles antigos eventos realizados no Jockey Club de São Paulo durante os anos 70 e 80.

A chegada de novos automóveis antigos ao museu

Mas o maior marco para o renascimento do museu foram doações feitas – as quais servem de exemplo para muita gente com vários carros paradinhos em garagens: 19 veículos antigos foram doados para o acervo do museu. E não são quaisquer veículos – a lista é extensa e muita rica: Packard de político importante, veículos que participaram da Segunda Guerra Mundial e outros veículos que pertenceram a “um tal” de Roberto Lee (isto mesmo: quando em vida, Lee vendeu alguns carros que não eram interessantes para ele. Um colecionador, que prefere manter o anonimato, fez doação de um lote de 04 automóveis. Para surpresa de todos, com pedigree de ser um ex-Roberto Lee).

Portanto, é com grande satisfação que todo o meio antigomobilista recebe este acervo. Tenham certeza que cada um de nós é responsável por toda esta conquista, pois a cada dia mantemos vivo o sonho do nosso patrono. O museu está vivo e sobrevive Roberto Lee.

Os novos veículos do acervo do Museu Paulista de Antiguidades Mecânicas:

1-Automóveis de passeio:

  • Packard Eight tipo 243 carroceria touring ano 1926;
  • Packard Eight tipo 243 carroceria limousine ano 1926 (pertenceu a um importante político do Sul);
  • Fiat tipo 509 Sport carroceria torpedo ano 1926 ou 1927 (raríssimo exemplar, que pertenceu a Roberto Lee até 1966);
  • Nash Tipo 464 Advanced Six Limousine de 7 passageiros ano 1929 (olhem a placa dele!);

2-Veículos Militares:

  • São 04 Dodges modelo Power Wagon anos 1939 a 1942 (dois jipes aberto tipo “patachoca”, um jipe tipo Commando e uma perua);
  • São 03 caminhões da GMC anos 1940 a 1942 (um para tropas e dois de carga);
  • Dois Jeep Willys anos 1942 e 1951;
  • Um anfíbio Ford ano 1942;
  • Um caminhão Ward LaFrance da década de 1940;
  • Um trator antigo da marca Deutz;
  • Um Jipe Ford M151 conhecido como Mutt (participou da Guerra da Coréia na década de 1950);
  • Dois caminhões Diamond T 969A da Segunda Guerra Mundial;

Os 10 melhores e mais valiosos automóveis do atual acervo:

  • 1948 Tucker Torpedo 1035;
  • 1932 Packard 9th Series tipo 903 Deluxe Eight Roadster;
  • 1926 Alfa Romeo tipo RL Coloniale Torpedo;
  • 1926 Tabolt tipo DC Sport Torpedo;
  • 1927 Packard 3rd Series tipo 343 Touring;
  • 1929 Packard 6th Series tipo 633 Limousine;
  • 1926 Packard Eight tipo 243 Touring;
  • 1926 Packard Eight tipo 243 Limousine;
  • 1939 Packard 120 tipo 1701 Convertible Sedan (levou a Rainha da Inglaterra);
  • 1931/1932 Fiat tipo 522 Grand Prix (Foi o carro com o qual Chico Landi venceu a primeira corrida da carreira – pensava-se ser a Alfa Romeo de Helenice).

 

 

 

 

Texto e fotos:
João Simonetti

 

6 Comentários

  1. evandro spina
    18 de setembro de 2013

    Me lembro que em 1996, 97, 98 todo fim de semana eu ia à Caçapava, pois minha namorada morava lá. E eu trabalhava em Ribeirão Preto. Claro que eu não podia deixar de visitar aquela fazenda com todas as relíquias que lá se encontravam. Durante esses 3, 4 anos eu pude ver o Maverick GT amarelo (com o logo da ford no capô), um Chevy 42 conversível, o Rolls Royce citado………vários Cadilacs……..e claro, o Tucker. Mas o que me deixa mais indignado é que, não sei qual época que foi, ou se arrombaram o salão principal…..não sei que aconteceu…….mas…….com quem ficou o CAPETA? Para mim o carro mais raro do museu, pois Tucker tem lá fora ainda….
    Abraços
    Evandro Spina – Catanduva- SP

  2. roberto nasser
    18 de setembro de 2013

    belo texto, exprime o alento e as esperanças dos antigomobilistas na recuperação do acervo, na volta à glória e aos brilhos do funcionamento do museu do lee.
    bom trabalho o do marcelo, que resgata a credibilidade, atrai doações para incrementar seu acervo. tomara que esta e as próximas administrações de caçapava entendam a importância do museu como seu grande canal com o mundo, como patrimônio apartidário.

    pessoalmente sou feliz em ter conquistado mais algumas inimizades com as iniciativas de ter formalizado denuncia ao delegado de caçapava sobre os saques ao museu, e ter requerido à secretaria de cultura do estado de são paulo realização de auditoria de conteúdo no acervo, gerando o processo que gerou a salvação do conteúdo e da ideia.

    r nasser,
    curador do museu nacional do automóvel

  3. 19 de setembro de 2013

    Nasser,
    You’re a great man!!!!
    Congratuations my friend.
    Parabens pela iniciativa e coragem.

    Um forte abraco

    Ge Ferreira
    California-USA

  4. john
    21 de setembro de 2013

    prezado evandro,

    Primeiramente, uma correção: Nunca houve chevrolet 1942, tampouco conversível, no acervo.

    O Capeta está são e salvo com o dr. Nasser em Brasilia. Já foi exposto em Araxá e fez um grande sucesso, pois está 100% recuperado.

    sds.

  5. gabriel
    27 de maio de 2015

    Gostaria de saber porque o museu nao esta aberto para visitaçao, ja que nem a propria prefeitura de caçapava consegue dar uma explicaçao

  6. rafael
    8 de outubro de 2017

    me gustaria saber si el museo se encuentra abierto pues este verano pienso pasar por cacapava

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