Motos Clássicas – Memória: Jacaré no seco andava. Quase voava


Uma das maiores lendas do motociclismo nas pistas perdia corrida para a vida louca das ruas em 1975

Um ídolo improvável que já era lenda aos 20 anos de idade, subia a Rua Augusta de pé no banco e não dispensava

um belo pega deixava este mundo em agosto de 1975 para ser imortalizado como um dos maiores nomes do motociclismo brasileiro após somente duas temporadas competindo.

Apesar de seu talento nato, a eterna busca pelo prazer da velocidade foi a maior inimiga de Carlos Alberto Pavan, o Jacaré.

Em uma época onde havia bem menos fiscalizações e restrições, Jacaré causava nas ruas tirando rachas, fazendo acrobacias, quebrando ossos e destruindo motos.

Existem registros em fotos de Jacaré de pé na moto no meio da Augusta, por exemplo. E, curiosamente, na maioria das vezes ele fazia suas doideiras com motos de outras pessoas! Imaginem a lábia para pedir emprestada uma moto a um amigo para correr…

Ele era arrojado e de origem humilde, desbancando gente com condições bem melhores.

Flávio Abbud, fã e seguidor de Jacaré, em entrevista para a Revista Trip de fevereiro de 2008

Porém, os amigos sabiam para quem estavam dando suas motos – mas isso não impediam alguns infortúnios… Quando começou a pilotar motos, aos 16 anos, arrebentou a Mondial de um amigo em uma bela porrada na traseira de uma Kombi.

Quando comprou sua primeira moto, antes dos 20 anos, o resultado foi inevitável: a Norton 500 virou um monte de ferro retorcido. Nesta época, ele já era bastante falado – geralmente amantes de velocidade, competidores e malucos frequentavam os mesmos lugares.

Aos 20 anos, em 1973, faz suas primeiras provas com uma Ducati 250 emprestada, claro. Os resultados não foram bons, mas sua fama chegou nos ouvidos de Edgard Soares, dono de uma das grandes equipes da época, que contratou Jacaré após perder seus dois pilotos (Walter Tucano e Denísio Casarini) para a Yamaha.

A partir daí começou a viagem louca de Jacaré nas pistas.

Com uma TR3 350, venceu pela primeira vez no final de 1973, durante etapa do Campeonato Paulista, o que foi o início de grandes resultados e histórias épicas que os fãs da época não conseguem esquecer.

A primeira aconteceu na Taça Centauro de 1974, disputada em três etapas. Com uma moto uma geração anterior, Jacaré chegou em quinto, atrás apenas dos grandes nomes da época: Kent Anderson, o grande Adu Celso, Tucano e Denísio.

Você desviava o olhar para não ver a queda, mas ele não caía. Pensava que ele não faria a próxima curva, e ele fazia – era um demente.

– Cayubi Rhormens, chefe da equipe de Jacaré, em entrevista para a Revista Quatro Rodas em 1980

A segunda, e talvez mais memorável, se desenrolou nas 24 Horas de Interlagos de 1974, competindo em dupla com Edmar Ferreira. Em seu turno na pista, Jacaré leva um tombo e quebra a mão esquerda. Qualquer piloto teria desistido, mas a dupla seguiu na prova com Ferreira, enquanto Jacaré foi ao hospital engessar a mão para voltar a competir.

Foi quando as vitórias começaram a se tornar uma constante naquele ano. Com Johnny Cecotto, venceu as 500 Milhas de Interlagos; ganhou a prova inaugural do Autódromo de Goiânia e triunfou nas 200 Milhas de Interlagos, disputadas no anel externo, passando Ferreira na última volta.

Porém, a “vida louca” começou a cobrar seu preço. Apesar de estar na garupa, sofreu um sério acidente no Minhocão, em São Paulo, fraturou a bacia, o fêmur, a rótula, perdeu a última etapa do Brasileiro, o qual liderava, o campeonato e os patrocinadores.

O Jacaré era um destrambelhado, andava na loucura, e meu pai resolveu colocá-lo na equipe. Meu pai quis ensiná-lo a competir, mas não teve tempo.

– Edgard Soares, filho homônimo do dono da equipe de Jacaré, em entrevista para a revista Trip em fevereiro de 2008.

Jacaré entrou em uma enorme depressão, com medo de não poder mais dobrar a perna direita. Sem o aporte profissional das grandes equipes, pegou uma Kawasaki 900 emprestada para disputar as 200 Milhas de 1975. Mesmo após mais um tombo nas ruas e uma clavícula fraturada, ele venceu a corrida.

Agora vocês verão! Serei outro daqui para frente e vou ser campeão.

Essas foram as palavras de Jacaré após a vitória, mas a história não permitiu que isso acontecesse. O piloto não resistiu à vida louca quando se sentiu estimulado a tirar um racha com um cara que passou voando ao seu lado com uma 7 galo (apelido das famosas Honda CBX 750).

06

Já era madrugada e o dia 23 de agosto de 1975 estava em suas primeiras horas quando as duas 7 galo rasgavam a Avenida Cidade Jardim, em São Paulo. Em uma ação rápida, a moto rival desvia de um Opala, que, assustado, entrou na faixa onde estava Jacaré. Ele não conseguiu desviar.

Aos 23 anos e com uma carreira promissora pela frente, podendo ter sido o elo entre as gerações de Adu Celso e Alexandre Barros, Jacaré perdeu para a vida louca. E o Brasil perdeu uma das maiores promessas de sua história no esporte a motor.

O que interessa é pedir-lhes que me desculpem a paixão pela velocidade. Era o meu jeito de viver. (…) Moto não mata. O que arrasa os caras por aí é essa fome de velocidade que não sabemos de que maneira saciar. Quanto mais se corre, mais se deseja correr…

Mensagem de Jacaré, psicografada por Chico Xavier em 1978.

Bibliografia: Revista Trip, fevereiro de 1978; YouTube; site Motos Clássicas 70;
Escrito por Bruno Vicaria

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