Em junho 2006 o Portal AutoClassic teve a honra de homenagear um dos maiores antigomobilistas do nosso país: José Roberto Nasser  que na madrugada do dia 09, fez sua passagem…

Fiquei  muito triste em receber esta notícia, vontade de ficar quieta num canto, pois este ano, é mais um ícone do nosso antigomobilismo que se vai.

Bom, uma forma que encontrei de homenagear nosso saudoso amigo, Nasser, foi postando esta entrevista que fiz há 12 anos atras para que vocês possam conhecer um pouco da essência deste grande colecionador, criador do termo “antigomobilista” que tanto usamos em nosso meio.

Que nosso amigo descanse em paz…



“Para uns, ele é polêmico. Para outros, realizador. Apesar da divisão conceitual há um ponto em que não há discussão sobre a figura e a atividade deste antigomobilista: de sua ação nasceram as posturas e os conceitos que moldaram a atual feição do antigomobilismo brasileiro.

Da apresentação do movimento à esfera da administração federal, à sua inclusão como atividade cultural, passando pelo varejo das medidas como a inclusão dos nacionais como carros de concurso; a emulação para a criação dos clássicos nacionais; o reconhecimento, por decreto e depois lei, do veículo antigo como objeto de cultura e história; a importação dos antigos.

Quem é José Roberto Nasser?

Sou carioca de nascimento, brasiliense por convicção, irritantemente dedicado ao que faço.

Antigomobilismo é paixão antiga?

Depende da medida de tempo. No caso, 35 anos. Não gostava de carros velho e entrei nisto para pacificar uns arranhões de relacionamento pessoal e profissional.

Eu era um bom amigo e depois advogado do Roberto Lee, pai e mãe do movimento antigomobilistico. Achava um folclore quando ia a S Paulo e o Lee me dedicava atenções, mostrava automóveis, apresentava pessoas, todos envolvido neste colecionismo.
(o termo antigomobilismo foi criado anos depois pelo Malcokm Forest e eu consegui incluí-lo no dicionário Houaiss, formalizando-o ).

Certa feita, resolvi um assunto para o Lee e dispensei-o dos honorários. Ele, para demonstrar seu agradecimento, mandou-me escolher entre três veículos para restaurar que estavam no Museu em Caçapava: um Buick 4 portas, conversível ’42; um Ford ’32 e uma misturada de MG com Jaguar. Nunca o fiz. Meu caminho de motorização passava por velhos DKWs e Gordinis. Que eu vivia consertando – e não gostava. Havia acabado de comprar um FNM 2.000, ótimo para um advogado recém formado, e não queria voltar na escala. Ficou mal parado.

Para consertar, resolvi procurar um Ford Modelo T, um mito. Achei num inventário e o Lee muito auxiliou com orientações. O segundo foi um Fordor, comprado ao Fernando Rossi, e daí em diante, definitivamente inoculado pelo virus antigomobilista perenis, deu no que deu.

O Lee passou, a contragosto, em 1975. O movimento perdeu a mola mestra. Haviam colecionadores, acervo, mas a movimentação era lenta. Ser colecionador não tinha uma aura democrática e era identificado como uma coisa blasée, de ricos e ociosos. Imagem falsa e que alguns investiam nela.

Roberto Nasser X Cenário Nacional

Anos depois, reuni gente para criar o Veteran de Brasília.

E descobri, por convívio maior, que as necessidades eram superiores ao meu julgamento. E entendi que faltava uma dedicação profissional ao negócio. Avisei ao pessoal do meu escritório que automóveis antigos eram os mais novos clientes. e que queria ajuda, idéias, providências e acompanhamento – bem democrático.

Assim nasceu a primeira viagem internacional para colecionadores – coloquei 50 pessoas num Boeing e aterrissamos em Buenos Aires. No vôo provoquei o Clube do Fordinho a realizar um raid de longa duração. Toparam e fizemos S Paulo – Brasília de Ford A. 55 automóveis quebrando o mito que carro antigo quebra.

Roberto Nasser X Conquistas legais X Placa Preta

À chegada em Brasília, convidei os dois ministros para receber a caravana. A ambos entreguei um requerimento solicitando a criação de um enquadramento especial no código – uma proposta antiga, do próprio Lee – e a de isenção de taxas e impostos; Conseqüência de ser um consultor periférico ao poder central. Para fazer o Raid tive que buscar autorizações em dois ministérios. Afinal, os carros não se enquadravam no Código de Trânsito. Fui atrás e consegui o apoio da Ford. Ter uma multinacional do automóvel endossando a viagem era importante, tanto para apresentar o poder divulgador do antigomobilismo quanto como aval.

Foi aí que a placa preta começou no Brasil, foi o marco documental, com carimbo e recibo. Com o clipping do noticiário debaixo do braço fui ao Confaz, o órgão do ministério da Fazenda que reúne secretários de fazenda dos estados. Buscava a isenção de IPVA. Não consegui. As decisões do Confaz devem ser unânimes e haviam secretários que pouca atenção deram à minha defesa. Fui ao de Brasília. E com a decisão daqui, enviei cópia a todos os clubes de então, colecionadores de lugares sem clubes e aos secretários de fazenda, mostrando como o DF resolvera problema. As decisões vieram em cascata.

Diferenciar. Mais que o veículo, o condutor. Tirá-lo da trilha do motorista de um velho bem econômico de transporte, e colocá-lo em via superior, a do mecenas preservador da história e da cultura. A do cidadão generoso que preserva a história. Ou seja, a mudança de enfoque. O antigomobilista de agora é reconhecimento como um útil ente cultural. O de antigamente tinha a imagem do rico ocioso.

Nasser, qual a vantagem pratica da placa preta?

Além desta separação, há outras igualmente importante: o veículo licenciado com a placa preta está isento de portar equipamentos tornados obrigatórios após sua produção  – ou seja, ele preserva integralmente sua originalidade. Outra, para a qual ainda não se apercebeu o relevo, é o fato de estar isentos da inspeção de segurança veicular, que mandará para o ferro-velho boa parte da frota velha.

Sem orgulho, a nossa legislação é tão clara e prática, que surpreende a colecionadores do resto do mundo. A pedidos, já verti a legislação para Espanha, Argentina, Chile, Venezuela, Alemanha e clube da Califórnia.

Ótima, é uma exceção legal, todos os meus colegas advogados querem saber como se consegue medida como esta. Mas para mim é metade do caminho. A outra propus e acompanho, que é a proibição de exportações dos veículos antigos do Brasil. Há falsos automobilistas que vivem fazendo estes negocinhos, esta subtração ao nosso acervo. São uns lesa-pátria e deveriam ser repudiados por tais atos.

O que Roberto Nasser acha da importação dos antigos?

Não tenho acompanhado. apesar de ter sido a enzima que provocou sua criação, não tenho informações atualizadas. creio, entretanto, que poderia ser mais produtiva.

Roberto Nasser, você acompanha o trabalho da FBVA?

Desde que deixei a presidência, o número de colecionadores aumentou, também o de clubes, houve o surgimento de publicações especializadas; mas o montante de conquistas para o movimento e os antigomobilistas é inexplicavelmente menor do que as realizadas na minha gestão pioneira e curta.

Me fale sobre a Fundação Memória dos Transportes?

Como expliquei, o antigomobilismo é tratado como cliente no meu escritório. sempre há algum tema em análise, gestação, propositura e acompanhamento. Criou-se a Fundação Memória dos Transportes para ter voz institucional, e capacidade para propor, requerer, acompanhar.

Roberto Nasser X Museu do Automóvel de Brasília

O Museu foi produto da consciência da necessidade de utilidade social para o antigomobilismo. Se você tem 100 carros e apenas 20 pessoas as vêem, seu valor para a comunidade é 1/5. Se você tem apenas um automóvel e circula com ele, leva menino para passear, criança para batismo, noivos a casamento, o número de pessoas atingido pela imagem do carro antigo, é muitíssimo maior. Ou seja, como agente de responsabilidade social você conta mais.Gostam de dizer que é o coroamento da vida antigomobilista. Ainda não é.

O Museu é pequeno, porém didático. Faz 4 exposições temáticas por ano e gira o público interessado. Conta histórias e situa os veículos no cenário da vida real. é um provocador de lembranças e um instigador no tema.

No último ano recebeu 15 mil pessoas. Público variado. De motoristas de taxi a embaixadores. De público comum a autoridades do primeiro escalão, ministros, parlamentares. E autistas; e pessoas com necessidades especiais; da melhor idade; e alunos. Faz cursos, tanto para colecionadores quanto na formação de mão de obra. E tem a maior biblioteca especializada do país.

Vamos Comparar? 

O Museu do Automóvel Carlo Rufia, em Turim, é mantido pela municipalidade, pela Fiat, seguradoras, bancos. Recebe 50 mil visitantes ano e sua biblioteca tem 5.000 volumes.

O Museu do Automóvel de Brasília é o único particular a constar do Sistema Nacional de Museus.

Um apreciador da história e da tecnologia. Assim, tento reunir o que melhor exprimiu a avulsão da criatividade brasileira na primeira década da indústria. Era a época de termos recebido apenas produtos críticos para produzir. Veículos que já haviam saído de produção – como o Aero e o JK; a caminho, como o Simca; experiências expansionistas com produto inadequado, como os Renault Dauphine e Gordini; ou aventuras tropicais, caso dos VW e dos DKW. A engenharia nacional fez milagres. e este período deve ser contado.

Nasser qual o seu perfil como colecionador de autos antigos?

Um apreciador da história e da tecnologia. Assim, tento reunir o que melhor exprimiu a avulsão da criatividade brasileira na primeira década da indústria. Era a época de termos recebido apenas produtos críticos para produzir. Veículos que já haviam saído de produção – como o Aero e o JK; a caminho, como o Simca; experiências expansionistas com produto inadequado, como os Renault Dauphine e Gordini; ou aventuras tropicais, caso dos VW e dos DKW. A engenharia nacional fez milagres. e este período deve ser contado.

Qual a ligação de Roberto Nasser com os veículos antigos nacionais?

De reverência. Tanta, que propus aos meus pares da direção da FBVA quando a dirigia, que os nacionais tivessem uma categoria própria e que pudessem ser premiados. Isto os trouxe à tona. E os meus colegas me brindaram com a escolha dos Clássicos Nacionais.

Quais os veículos antigos Nacionais que Roberto Nasser reuniu?

Primeira intervenção de tecnologia, um Ford T, início dos anos ’20, com carroceria Sporstman, da Cia Grassi.Acho que é a mais antiga demonstração de mão brasileira.

Depois, foquei nas raridades exclusivas – FNM TIMB; Onça; GT Malzoni; Brasinca GT 4200S; Vemag Fissore; Willys Limousine; Willys Gávea – o primeiro fórmula 3 brasileiro, o Alfa 2300 com motor número 1. Ganhei, recentemente, outras duas raridades: um IBAP Democrata e um Mc Laren Julia. Claro, busco o que o jornalista especializado Fernando Campos chama de “as esquinas da história do automóvel “aqueles que provocaram mudanças. Além dos Ford T e A, tenho Jeep Ford ’42; MG TC ’49; Cadillac Coupé de Ville ’54. Procuro Citroën 11L e VW ’53 2a. série. E Jaguar e Alfa,licenças do coração.

Nasser, sua família te apóia nesta movimentação?

Diria que sim. Claro. E toda vez que ouço qualquer questão a respeito,  primeiro me pergunto se não estou entrando em surto, gastando mais com museu, ampliando biblioteca e eventuais aquisições, que a minha capacidade de restaurar e usufruir.

Relação Família Nasser X Veículos Antigos

Vera, minha mulher me devolveu um Alfa GTV que eu havia presenteado. Disse, que eu aproveitaria mais. Sábia. Filipe, o mais velho, em eventos Alfa vai com Giulietta Spider. A menor, Isabella, é mais assumida. Conduz, bem, seu Isabella Borgward, com alavanca na coluna, primeira marcha não sincronizada. Exceto T, dirige qualquer antigo. É do ramo.

Nasser, antigomobilismo em sua vida é algo especial?

Muito. Dá a consciência de que os encontros são ocasião própria e generosa de fazer o que se gosta, rever e encontrar amigos. Do conhecimento que neste pais de injustiças, poucos são os grupos tão privilegiados como o nosso, onde valores, faturamentos, posses, são irrelevantes. Ter um Vemag ou um Bugatti habilita a entrada a este círculo e a matéria de troca são bons convívios e bons momentos. Acho uma perda de tempo haver eventuais desentendimentos, uns ciuminhos, umas intriguinhas, coisas tão menores ante a magnitude da amizade e do bom convívio.

Ofereceu-me, em paralelo, a reunião do esforço profissional com a êxito institucional. É muito bom fazer conquistas para um cliente multinacional, quase tanto quanto realizá-la para o antigomobilismo, e ver as benesses das medidas agregando pessoas e permitindo o desenvolvimento da atividade.

Nosos queridos e saudosos: Nasser e Mahar
Nasser, alguma queixa ou tristeza no meio antigomobilista?

Não. Meu perfil é o fazedor. Toco a caravana, abro o caminho. Os latidos ficam para trás.

Quais os planos de Roberto Nasser para o futuro?

O foco de agora não é aumentar o acervo. Isto vem ocorrendo por doações e as exposições temáticas são montadas, em parte maior, como acervo dos antigomobilistas brasilienses, que apóiam incondicionalmente o Museu.Por pontos. O Museu começa a decolar. Está bem plantado, tem presença na administração federal, é referência como empreendimento privado e bem tocado sem verbas. O meu relacionamento internacional na área tem auxiliado.

O Carro do Brasil, pioneiro e corajoso evento limitado aos carros antigos vai para a quinta edição. Neste ano, na Esplanada dos Ministérios. E dá frutos. Seja pelo aproveitamento da metodologia, seja pelo multiplicar. Neste ano, em outubro, em Passo Fundo, RS, os irmãos Azambuja estão realizando o primeiro evento regional apenas com nacionais. É um desdobramento que muito me honra.

Pessoalmente tenho criado agenda para dar consultoria graciosa sobre antigomobilismo e realizar palestras sobre este tema. Falarei neste mês em João Pessoa, PB, no primeiro evento de seu clube em criação,  e em Araxá sobre a História do Democrata.

Na área das conquistas legislativas há muito o que fazer. Atualmente administro o acompanhamento de duas propostas: no âmbito local a proibição da exportação de veículos antigos, e a redução da alíquota de importação dos antigos; e no âmbito internacional da que realizei ao Mercosul pleiteando a isenção de impostos para a importação de veículos antigos entre países membros. O governo argentino contra-propôs um imposto de 2%. Concordei. Deve sair logo.

 

O Portal AutoClassic parabeniza e agradece ao saudoso: José Roberto Nasser, por tudo que fez o pelo Antigomobilismo Brasileiro… Parabéns Nasser, descanse em paz e receba os aplausos e a admiração de toda comunidade antigomobilista do Brasil!

Saudações antigomobilistas (by Roberto Nasser),

Teresa gago
Portal AutoClassic
Rio de Janeiro – Brasil

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