“O surpreendente filho da crise”, assim começava a matéria da revista Quatro Rodas em sua edição de junho de 1981, sobre o novo e surpreendente automóvel de luxo da Ford.

   Há exatos quarenta anos após o lançamento oficial do carro, a chamada da matéria ainda hoje faria sentido no cenário mundial afetado pela pandemia.

   Ele seria um carro de representação, direcionado principalmente ao público de 35 e 45 anos e bem sucedido.

   A montadora, por sua vez tinha lugar de destaque entre as quatro existentes no mercado (Chevrolet, FIAT, Ford e VW), como detentora de ótimo acabamento, característica que se tornaria ainda mais consagrada com o lançamento do novo carro.

  Apresentado oficialmente à imprensa em maio de 1981, na Ilha de Itaparica (BA), com carrocerias de duas e quatro portas e em duas versões de acabamento, a mais completa Del Rey Ouro e a básica, mas nem tanto, Del Rey, chamada por alguns de Prata, denominação nunca oficializada pelo fabricante.

   O ano era o mesmo da fundação da banda de rock Barão Vermelho, contrastando o sério sedã com o irreverente Cazuza no vocal.

 

Seu estilo foi inspirado nos produtos da Ford Europa da época, especificamente no Granada MK2.

Depois de várias opções, como: Torino, Capri, Tiara , Continental, Marck, acabou sendo escolhido o nome Del Rey, definido pelo publicitário Mauro Salles, em alusão à origem nobre da histórica cidade mineira São João del-Rei, tendo trocada a última letra pelo mais estiloso “y”, adicionando ainda mais exclusividade ao clássico veículo.

   Com relação ao Ford Granada, a semelhança era notável, incluindo detalhes como as rodas e grupos óticos dianteiro e traseiro, apenas em uma escala menor, mostrando um impressionante e bem sucedido trabalho dos designers em transformar a carroceria do Corcel em o que havia de melhor nas subsidiárias europeias da época.

 

   Por falar em estilo, isto era o que não faltava ao novo Ford, o consumidor brasileiro conheceu itens inéditos para um carro médio nacional, como vidros e travas elétricas (nem o Landau as tinha), rodas de liga leve, vidros bronze importados, retrovisores com ajuste interno, bancos em veludo navalhado, faróis de neblina, luzes de leitura, para-brisas laminado, cintos de segurança retráteis de três pontos com travamento pendular, painel com 06 instrumentos com iluminação azul e laranja que só encontrava concorrência no mercado nacional, se comparado ao da Alfa Romeo 2300, um veículo bem mais caro, ar condicionado, carpete com fibras naturais e o melhor de tudo, relógio de teto, este último item se tornando a marca registrada do carro e lembrado até hoje.

   Depois disto tudo, só mesmo ouvindo “Exagerado” de Barão Vermelho no rádio AM/FM com toca-fitas estéreo, o máximo em som, antes das centrais multimídias de hoje em dia. 

   Se em acabamento o carro ficava muito acima do esperado, mecanicamente a Ford foi conservadora, mantendo na íntegra toda a estrutura mecânica do irmão Corcel II e seu motor Sierra de 1.6 litro, apesar do Del Rey com todos os equipamento disponíveis, pesar em torno de 70 Kgs a mais, o que não fazia do desempenho a parte mais entusiasmante do novo veículo.

   Chegaram a ser avaliados protótipos com o motor Georgia, com comando de válvulas no cabeçote e fluxo cruzado, com a capacidade cúbica reduzida de 2.3 para 2.0 litros, mas a crise do petróleo vivida em 1981 e obviamente a economia em se utilizar um motor testado e aprovado há anos na plataforma do Corcel, acabou dando a vitória ao motor Sierra.

   “Tivemos sorte na escolha do motor”, dizia Derek Barron, diretor de vendas e Marketing da Ford na época.

   Atualizações foram surgindo no modelo, hora ganhando melhorias, hora perdendo glamour, porém fazendo com que ele se adequasse ao seu tempo, até que foi se tornando obsoleto e enfim retirado de produção. Antes disto acontecer uma longa vida de 10 anos de produção e mais de 350.000 unidades estariam por vir, marca difícil de atingir naquela época e principalmente nos dias atuais, mas hoje a coluna é dedicada às primeiras unidades nascidas no ano de 1981.

   Criticado por alguns, não só o Del Rey, mas todos os modelos produzidos no Brasil naquele tempo, pela simplicidade de seu projeto, comparado ao que se produzia em países de primeiro mundo, tínhamos ao menos a liberdade de definir o estilo e batizar nossos próprios carros com nomes que nos diziam algo e muitas vezes homenageavam lugares de nosso país.

   Mas o tempo é implacável e ironicamente há quatro meses do primeiro Del Rey completar seu aniversário de quatro décadas, sua fábrica anunciou o fechamento de suas quatro unidades no Brasil (numerologistas, expliquem o porquê de tantos números quatro), os jovens senhores de 1981 hoje são octagenários e o carro moderno que ganhou as ruas em 1981, tem ele mesmo a idade daqueles homens e mulheres que o conduziam quando 0 Km.

   Como dizia o poeta, também dos anos 1980, – O tempo não para, não para não, não para. Mas me permito acrescentar que o tempo muda as coisas, fazendo algumas delas envelhecerem, murcharem, enrugarem, enferrujarem e desaparecerem, mas outras após todo este processo transformam-se em histórias, o que faz tudo valer a pena.

 

Até a próxima coluna

Wagner Coronado

1 Comment

  1. Leandro
    17 de julho de 2021
    Responder

    Excelente texto e reflexão! Parabéns!!!

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