BENTLEY EMBERICOS – Por Wagner Coronado


Em 2017 demos início aqui no Portal AutoClassic, uma série de artigos sob o tema “Grandes Viagens de Carro (Antigo), tema este que não é preciso consumir muitas linhas para convencer o leitor da predileção deste que vos escreve.

   Estes artigos tem como objetivo relatar histórias de viagens rodoviárias pitorescas que nos fazem sonhar e quem sabe inspirar a construção de viagens que façam de nós os seus protagonistas.

 Com uma pausa pra lá de grande, mas sem deixar de contribuir com temas relacionados a nossos persistentes velhinhos, que teimam em devorar quilômetros de asfalto, vamos a mais uma nova história desta série.

   Em um artigo recente, relatamos a realização de nosso sonho em percorrer algumas voltas do circuito do Autódromo de Interlagos com nossos viajados Del Rey e Belina Rota do Asfalto e por falar em sonho, por que não sonhar com uma viagem de férias em família com destino a uma praia, mas que no caminho fazemos uma parada para participar da mais famosa corrida de resistência de todos os tempos com nosso próprio automóvel e de quebra obter uma classificação com direito a subir no pódio?

   Pasmem, pois isto não foi um sonho de menino e aconteceu de verdade no ano de 1949!

 

 

Estamos na Inglaterra, o ano é 1938 e a prestigiosa marca Bentley já não é uma companhia independente, tendo sido incorporada pela Rolls Royce em 1931, o que a salvou de seu desaparecimento. A sobrevivência da marca ficou assegurada, mas a exclusividade nem tanto, já que o preço de sua sobrevivência foi compartilhar motores e chassis com a marca dominante, o que fez com que alguns críticos a chamassem desdenhosamente de “Rolls Bentley”, lembrando as tão comuns fusões de marcas de hoje em dia. Um destes “híbridos” era feito com base no Rolls Royce 25/30, usando o mesmo motor de seis cilindros em linha e 4.258 cc, com 90 cv.  A este modelo foi dado o nome Bentley 4 ¼ que era equipado com uma overdrive que garantia uma condução ultra suave.  Para garantir o grau de parentesco entre as duas marcas inglesas, agora até mesmo as carrocerias eram feitas por alguns dos encoraçadores que trabalhavam para a RR.

Ainda assim, havia suas exceções, afinal exclusividade sempre foi um dos objetivos dos abastados, assim entra em nossa história o sr.Walter Sleator, vendedor de modelos RR e Bentley, instalado em Paris. Sleator sonhava em ter seu Bentley 4 ¼ com uma aerodinâmica diferenciada e este sonho tornou-se viável quando conheceu o rico armador grego André Embericos, que também residia em Paris, portanto a questão financeira estava resolvida, já que Embericos compartilhava a mesma paixão por automóveis velozes e tinha disposição para financiar o projeto de algo tão exclusivo.

   Agora a questão era encontrar alguém que projetasse e construísse uma carroceria que contemplasse o que queria, a saída foi contratar a especialista Portout Carrosier, onde o estilista e entusiasta em aviação Georges Paulin deu formas ao sonho de Sleator.

   Uma leve e aerodinâmica carroceria em alumínio foi concebida e montada sobre a estrutura e mecânica enviada pela Bentley de Crewe. Surgia assim um elegante coupé e um dos automóveis mais aerodinâmicos daqueles tempos, que ganharia o nome de Bentley 4 ¼ Embericos.

Em 1939, Embericos venderia o Bentley a Jack Zoltan Hay. Mas só depois da guerra, em 1949, Hay toma uma decisão que marcaria a história do carro, fazer uma viagem de férias com a família até o sul da França, mas no caminho faria uma parada em Le Mans para participar ao volante do carro da família da célebre corrida de 24 horas e depois logo seguiriam caminho para a praia. Uma decisão que nos dias de hoje garantiria no mínimo uma vaga em uma casa de repouso.

   Para preparar o carro para a corrida, Hay montou um tanque de combustível maior, retirou as coberturas aerodinâmicas das rodas traseiras, deslocou o terceiro farol embutido na grade frontal, para uma posição mais abaixo, liberando outra entrada de ar para arrefecimento do motor e colocou os números na porta do agora carro de corridas.

    A mecânica foi mantida original e o motor de 135 cv que fazia o coupé  atingir os 200 Km/h não era tanto assim, mas o Bentley era muito fácil e confortável de conduzir e principalmente confiável, o que é muito mais importante em uma prova de resistência. Durante a corrida os únicos problemas registrados foram dois pneus furados.

   O posto de piloto foi revezado com o jornalista Tommy Wisdom e a dupla terminou num fantástico sexto lugar da geral, cobrindo 2.842 Km à média de 118 Km/h. Nada mau para um carro com onze anos e 90 mil Km. Depois da corrida, Hay tirou o depósito de combustível suplementar, acomodou confortavelmente a família e a bagagem e seguiu viagem para Cote D”Azur.

   Nos dois anos seguintes, voltaria com o mesmo carro para participar na 24 horas de Le Mans, mas o Bentlley já não era tão competitivo e não passou do 14º e 22º lugares.

   História que lembra muito as vividas nas primeiras edições da brasileiríssima “Mil Milhas”, onde os melhores carros nasciam em pequenas oficinas, construídos muitas vezes pelas mãos dos próprios pilotos.

   Quem sabe daí possa nascer um novo artigo de nossa série e ampliar ainda mais nossos sonhos de meninos.

Até a próxima (sonhadora) coluna

Wagner Coronado

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *