A GENÉTICA TAMBÉM ESTÁ NO AUTOMÓVEL


   Alguns fatores genéticos são transmitidos durante a concepção dos seres vivos, sendo assim, alguns indivíduos possuem aptidões que os tornam mais resistentes do que outros em determinadas situações, como o frio ou o calor. Mas e com as máquinas, isso pode acontecer?

   Semelhanças entre alguns veículos podem ultrapassar a área da coincidência e outras formas de transmissão genética, além de grades e lanternas, podem surgir em nossos admirados seres compostos por porcas e parafusos.

   Em uma viagem que fizemos com nosso Ford Del Rey ao oeste da Argentina em plena estação de inverno, várias eram as incógnitas sobre o seu comportamento longe de nosso país, como o combustível sem adição de álcool, a altitude de mais de 3.200 metros na Cordilheira dos Andes e principalmente as temperaturas negativas que enfrentaríamos diariamente naquela época do ano. Todas essas diversidades foram significativas, algumas de forma negativa como a perda de potência gradual à altitude, outras positivas como o consumo e desempenho, otimizados com o combustível de melhor qualidade e o comportamento impecável do carro a baixas temperaturas, até mesmo melhor do que nos dias excessivamente quentes, que tanto estamos acostumados, em um país tropical como o nosso.

   Teria a aptidão a baixas temperaturas, relação com a origem do projeto de seu motor Ford CHT?

   Nascido na França e batizado de Ventoux, este motor equipou o Renault R4, aqui conhecido por “Rabo Quente” e o Daulphine/Gordini. Mais tarde um novo motor com o mesmo desenho e arquitetura ganhou mais dois mancais e teve aumentada a largura e o comprimento do bloco, para possibilitá-lo atingir a capacidade cúbica de até 1,6 litros. Este motor foi chamado Cléon na França. O mesmo teve versões desenvolvidas pelo preparador francês, naturalizado italiano Amédée Gordini, e equiparam verdadeiros ícones do automobilismo que brilharam em cenários gelados de forma inimaginável em nosso quente país, esses eram os Renault Alpine e Renault R8 Gordini, em diversas edições do rali de Monte Carlo.

    Aqui no Brasil, mais uma vez este versátil motor sofreu alterações, agora introduzidas pela engenharia da Ford, que entre outras, implantou um sistema que otimizava a queima da mistura ar/combustível, melhorando desempenho e consumo. Este sistema foi chamado de “Compound High Turbulence”, cujas iniciais CHT dariam nome ao “novo” motor.

   Pensando bem, o calor dos trópicos já foi visto como um problema muito maior do que o frio extremo pelas montadoras de automóveis no passado. Elas chegaram a considerar impossível a fundição de blocos de motores com precisão em países do hemisfério sul. Dogma quebrado pela empresa Sofunge nos anos 1950.

   Muitos que tentaram enfrentar temperaturas escaldantes com veículos equipados com o sistema de refrigeração por termo sifão também não se deram bem.

  Ainda assim, cuidados para viajar a regiões de frio extremo devem ser tomados, especialmente por nós brasileiros, mesmo os sulistas que já estão acostumados a temperaturas extremas.

   Seguem algumas dicas, sendo que parte delas, aprendemos a duras penas:

Líquido de arrefecimento: sempre utilizar aditivos com anti-congelante a base de etileno glicol.

Água do esguichador de para-brisas: adicionar anti-congelante. Por pouco não sofremos um acidente na Argentina por ter esguichado água congelada no para-brisas que ficou imediatamente sem visibilidade.

Óleo de motor: classificação mínima igual ou inferior a 15W. Este número indica a capacidade do lubrificante a temperaturas baixas. (verificar esta possibilidade no manual do seu automóvel).

Fluido de freio: DOT4 . Esta classificação possui ponto de congelamento do fluido menor do que a DOT3.  (verificar esta possibilidade no manual do seu automóvel).   

Cadenas: São correntes que se acoplam às rodas de tração. Obrigatórias pela polícia rodoviária em estradas congeladas.

   Evitar o estacionamento do veículo por longos períodos ao relento onde a possibilidade de congelamento dos fluidos aumenta, mesmo utilizando os especificados acima.

   Em nossas viagens a regiões de baixas temperaturas, também notamos que a maioria dos carros que cruza em sentido contrário, tem um papelão na grade frontal, isso evita a entrada de ar gelado no radiador que refrigera o motor demasiadamente e em caso de neve o congelamento da colmeia, o que pode provocar o superaquecimento do motor. Deselegante, mas eficaz.

   Antes da viagem à cordilheira, já sabendo das temperaturas que iríamos enfrentar, instalamos uma manta de alumínio termo-absorvente abaixo dos carpetes do Del Rey, encontrada em lojas de materiais para construção para ser aplicada no revestimento de telhados, o que garantiu algum isolamento térmico. Mesmo assim, tivemos que caprichar nas roupas, já que na época não tínhamos sistema de aquecimento interno, o que estamos tratando de providenciar neste momento em outro de nossos carros, que em breve retornará ao frio da Cordilheira dos Andes. Essa e outras preparações, o leitor de AutoClassic poderá acompanhar em nosso canal, bastando clicar no link abaixo:

https://www.youtube.com/channel/UCRL9qcJYatYXwV5xgM36jgg

 

   Podemos não ter o campeão de Monte Carlo, mas cada vez mais nossos Del Rey resgatam sua (gelada) carga genética.

Até a próxima coluna.

Wagner Coronado.

1 Comment

  1. Leandro
    3 de maio de 2022
    Responder

    Parabéns pelo texto! Muito bom!
    O truque do papelão ja presenciei no sul do Brasil também, e demorei um pouco ora entender o motivo… Na oportunidade minha Belina a álcool ficou falhando um tempão até o sol sair, dai voltou ao normal… era motor frio em demasia

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.