Este artigo detalhadíssimo  foi escrito no ano de 2012. Como o veículo agora está a venda, Vale conhecer a história completa deste automóvel .

No último final de semana de junho tivemos uma oportunidade incomum: encontramo-nos com o Carlos André Sarmento, na companhia do Miguel Crispim e do Jan Balder, no Hotel Serraverde (Minas Gerais, Brasil). O motivo? Dirimir qualquer dúvida que pudesse ainda haver em relação ao GT Malzoni , placa LEB 9063.

E, como foi feito? Participarmos de uma cerimônia de autenticidade daquele Malzoni, que, a meu ver, ficará para história do automobilismo brasileiro, pois trata-se do reconhecimento do lendário GT Malzoni de corrida, o n° 7 das “Mil Milhas de 1966”, que é parte integrante da história do automóvel e do automobilismo no Brasil.

O mecânico Chefe da Equipe VEMAG, Miguel Crispim documentou nesta ocasião, em cartório, a autenticidade daquele veículo GT Malzoni de corrida. Presentes a esta cerimônia, estavam o próprio Crispim, o engenheiro e piloto, Jan Balder,  Eu, Teresa Gago, junto com o Berek, ambos do AutoClassic PortaL; e, o proprietário do veículo, Carlos André Sarmento.

Um dia muito especial para todos nós e, principalmente, para os admiradores dos carros esportivos brasileiros e das corridas da década de 60 – foi o resgate das lembranças do piloto e do mecânico da EQUIPE BRASIL, acontecido por acaso e com o espólio da famosa Equipe Vemag!

Um pouco da história…

… em 1966, já absorvida pela VW, a Vemag, estava fora das competições automobilísticas. O Chefe do Departamento de Desenvolvimento Técnico, Sr. Miguel Ladeira Crispim, fazia o  inventário da área de competição da Vemag, quando, Jan Balder – com seu prestigio, conhecimento,  e determinação –, conseguiu disponibilizar para ele correr em um dos veículos . Isto foi conseguido através de votação e com um placar de 5 x 3 foi autorizado o empréstimo do 3º carro para o Jan Balder participar das Mil Milhas de Interlagos daquele ano de 1966.

E, o carro, segundo o Chefe Crispim, com motor 1.000 e não 1.100 – que necessitava de um corte no chassis para a passagem de um coletor de descarga maior – era um pouco menos potente, para que tivessem a chance de concluir a prova, pois, a dupla de pilotos que iria usa-lo, era, na verdade, composta por “meninos inexperientes de 18 anos”: Jan Balder, o Omelete, e Emerson Fittipaldi, o Rato!

Na época, tratava-se de um grupo de amigos independentes, formando duplas e cada uma  usando um carro da extinta Equipe VEMAG, que corriam sem vínculo nenhum com a marca VEMAG, e onde, cada piloto daquela recém formada equipe, batalhava por algum tipo de patrocínio para viabilizar a possibilidade de competirem. Mas, tendo que ter uma equipe para ingressarem naquela corrida, criaram então a “Equipe Brasil”. Tempos difíceis!

Nas VII Mil Milhas de 1966, notem os originais logos do "rato" (Emerson Fittipaldi) e do "omelete" (Jan Balder) aplicados na coluna do Malzoni DKW-GT, onde Emerson verificava pessoalmente o abastecimento...

Nas VII Mil Milhas de 1966, notem os originais logos do “rato” (Emerson Fittipaldi) e do “omelete” (Jan Balder) aplicados na coluna do Malzoni DKW-GT, onde Emerson verificava pessoalmente o abastecimento…

As reuniões eram feitas na casa do Sr Wilson Fittipaldi, pai de Emerson e Wilsinho Fittipaldi, onde se discutia estratégias, formas para conseguirem o mínimo necessário, entre outras tantas coisas importantes para aquele tipo de corrida. E, com o apoio de amigos, carros pessoais e muita determinação, eles usaram de tudo para participarem daquela corrida com aquele Malzoni. E, lembrem-se que a dupla era formada por garotos de 18 anos!

Emerson chorando após o término das Mil Milhas e sendo carregado pelos amigos

Emerson chorando após o término das Mil Milhas e sendo carregado pelos amigos

Mas, o que surpreendeu foi que este equipamento, cedido pela competente e extinta Equipe VEMAG, possuía anos de desenvolvimento em carros vencedores. E, este foi, sem dúvida, o que propiciou a quase vitoria e o excelente resultado dos 3 carros se classificarem entre os primeiros quatro vencedores, após 15 horas ininterruptas da mais dura prova automobilística brasileira.

Emerson Fittipaldi e Jan Balder recebendo o troféu

Emerson Fittipaldi e Jan Balder recebendo o troféu

E… estes “meninos inexperientes” lideraram a corrida até 3 voltas do final e quase a venceram! Só perderam por causa de problemas mecânicos, objeto de acirrada discussão entre o piloto, Jan Balder, e o mecânico Chefe, Crispim, que perdura pelos últimos 42 anos, como se esta corrida tivesse acabado de terminar; um afirma que foi o condensador de um dos cilindros e, o outro, um pistão travado… e, isto aconteceu a três voltas do final, quando lideravam, e, mesmo assim, chegaram… em terceiro lugar, em dois cilindros…

 Fatos que levaram a autenticidade do Veículo brasileiro histórico.

Este  carro, o GT Malzoni n° 7, está hoje na cidade de São Sebastião do Rio Verde, nas Terras Altas da Mantiqueira, no Sul de Minas Gerais. Ele foi periciado pelo mecânico Chefe da antiga Equipe VEMAG, Miguel Crispim, que constatou todas as modificações feitas por ele, ainda na Equipe VEMAG, em 1965. Na época, para a redução de peso, eram usados todos os recursos que a fábrica possibilitava, tais como a escolha das chapas mais leves, com uma espessura de 1.5mm nas paredes; para a estampagem do chassis, com a possibilidade de aliviamento de peso das longarinas, o Crispim fez um gabarito usado para furar as mesmas antes da prensagem das lâminas do chassis, furos estes que, na época, só poderiam ser feitos com as longarinas soltas, isentando ainda os locais que seriam usados para a fixação de partes do chassis.

Carlos André, seu mecânico restaurador Ricardo Correa e Crispim verificam o chassi do Malzoni de corrida.

Carlos André, seu mecânico restaurador Ricardo Correa e Crispim verificam o chassi do Malzoni de corrida.

Para verificar, constatar e comprovar, foram feitas medidas e observações que só mesmo o criador teria a possibilidade de reconhecer: além do chassis, modificação no suporte do amortecedor dianteiro, onde ele foi alongado para possibilitar um novo ângulo; colocação de mão francesa na suspensão dianteira, para resistir melhor, sem quebra, já que a modificação anterior aparentava fragilidade; ajustes finos na cambagem, para melhor estabilidade; reposicionamento da posição do volante…

Carlos André e Berek ouvem atentamente as explicações de Crispim.

Carlos André e Berek ouvem atentamente as explicações de Crispim.

Enfim, outro item observado, foi a balança ou bandeja e os semi-eixos, que eram totalmente aliviadas para diminuir o peso não suspenso do carro. Tudo isto, na época, desenvolvido em segredo no auge dos projetos do Departamento de Competições da VEMAG, chefiado pelo competente Jorge Lettry e executado pelo Crispim!

Emocionado, Crispim fala sobre o Malzoni com Carlos André o proprietário do Malzoni de corrida.

Emocionado, Crispim fala sobre o Malzoni com Carlos André o proprietário do Malzoni de corrida.

Segundo o Crispim, o chassis nos carros preparados pela Equipe eram feitos, única e exclusivamente, na fábrica VEMAG – também em segredo – para o Departamento de Competições usar nos três carros Malzoni e nas carreteras de competição e, um deles, foi confirmado como sendo o do Malzoni do Carlos André. Igualmente observado pelo Crispim, este carro foi o único que usou o motor 1.000, portanto não possuía o coletor de descarga maior e não tinha a longarina alargada para a passagem do coletor dos motores 1.100, o que assim indica, sem qualquer dúvida, ter sido este o terceiro carro cedido para a Equipe Brasil e usado pela dupla Jan Balder e Emerson Fittipaldi nas Mil Milhas de 1966.

 

Foi com enorme e profunda emoção que testemunhamos o Crispim debaixo do carro, medindo com trena e paquímetro, chorando e ao mesmo tempo investigando, medindo e reconfirmando cada parte, sob todos os detalhes construtivos e técnicos.

Crispim, com trena na mão, verifica medidas para confirmar que, realmente, este carro foi o que o Chiquinho bateu o Record de Interlagos.

Crispim, com trena na mão, verifica medidas para confirmar que, realmente, este carro foi o que o Chiquinho bateu o Record de Interlagos.

E, mais incrível ainda foi assistir estes 3 personagens: o projetista, o piloto e o carro se reencontrando após esta épica Mil Milhas, vivenciando com tanta ou igual emoção as experiências vividas por eles há 42 anos, em um remoto novembro de 1966…

Carlos André e o ex-mecânico da equipe Brasil checa o cofre do motor do Malzoni de corrida

Carlos André e o ex-mecânico da equipe Brasil checa o cofre do motor do Malzoni de corrida

 Foram estes alguns dos pontos constatados pelo Crispim como tendo sido realizado e desenvolvido por ele, desta forma fundamentando esta comprovação no GT Malzoni n° 7 de corrida, hoje emplacado com a placa LEB 9063, na bucólica cidade mineira de São Sebastião do Rio Verde.

  • Suporte de fixação traseiro da carroceria

  • Soldas no chassi

  • Base do Santo Antonio, feitas e soldadas pelo Crispim

  • Furação de alívio feitos pelas mãos do próprio  Crispim no chassis

  • Alteração do ponto de fixação dos amortecedores dianteiros com colocação de mão francesa para dar mais resistencia.

  • Balanças aliviadas em peso com retirada de material

  • Espessura da parede do chassi

  • Reposicionamento do volante do motorista

Ricardo Correa, Crispim, Berek e Carlos André a modificação feita no suporte do amortecedor.

Ricardo Correa, Crispim, Berek e Carlos André a modificação feita no suporte do amortecedor.

 Entretanto, para nosso espanto o Crispim ainda fez outra constatação: este foi também o Malzoni utilizado pelo Chiquinho Lameirão para quebrar o Record de velocidade da sua categoria na pista antiga do Autódromo de Interlagos, com o tempo de  3′ 48″ 06 décimos.( Três minutos, quarenta e oito segundos e seis décimos)! Medidas e comprovação de locais onde instalara a barra estabilizadora no eixo traseiro, para permitir, na época a pedido do Lameirão, que este carro fosse mais sobreesterçante.

Crispim esplanando sobre a expessura das paredes das longarinas do Malzoni de Corrida que são bem mais delgadas do que os de série. Jan Balder e Berek observam atentamente.

Crispim esplanando sobre a expessura das paredes das longarinas do Malzoni de Corrida que são bem mais delgadas do que os de série. Jan Balder e Berek observam atentamente.

 Esta última comprovação foi um pedido que o próprio Chiquinho Lameirão fez ao Crispim antes dele seguir para esta viagem de inspeção. Pois, em 2010, andara o Chiquinho Lameirão com o Jan Balder neste carro em Interlagos para a filmagem de um programa de TV. E, em poucas curvas, ele suspeitou ter sido este o Malzoni o que pilotara na ocasião e, para comprovar, solicitou ao Chefe Crispim que verificasse se constavam nele as modificações feitas por ele, Crispim, neste carro, naquela ocasião.

 

Não restaram dúvidas: Crispim reconheceu sua criação e seu carro em cada um dos detalhes e medidas contidas neste veiculo, e se emocionou; assim como o piloto Jan Balder. Crispim afirma ainda que somente ele sabe cada número de medida usado nas alterações feitas neste veículo. (medidas estas que são segredo, e que não vai revelar… ao menos por enquanto! )

 Abaixo o AutoClassic registrou um vídeo do Crispim com uma trena checando todas as medidas do Malzoni de Corrida nº7

Na foto abaixo, sob olhares do escrivão,  Miguel Crismpim assina a declaração de autenticidade do Malzoni de Corrida nº7:

Crispim assina um termo de autenticidade do veículo por ele adaptado e modificado para competição

Crispim assina um termo de autenticidade do veículo por ele adaptado e modificado para competição

 Orgulhoso por conhecer a origem do seu Malzoni, Carlos André manifestou sua vontade de participar, algum dia, com este GT Malzoni de corrida, em um rally de regularidade na Europa… Quem sabe, Carlos André, estaremos lá torcendo por você!

Carlos André, Jan Balder, Berek e Crispim

Carlos André, Jan Balder, Berek e Crispim

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Saudações, Um forte abraço,

Teresa Gago
Portal AutoClassic
Rio de Janeiro – Brasil