No Ritmo de Antigamente!


Não sei ao certo o motivo, mas Karmann-Ghia sempre me lembrou Bossa Nova. Talvez as linhas românticas da carroceria ou o estilo que não envelhece nunca façam essas duas coisas terem algo em comum. Pode ser também o fato de que o clássico Volkswagen – com a beleza do design italiano – seja quase unanimidade para quem aprecia carro antigo.

A verdade é que o modelo chegou por aqui no começo da década de 60. E deixou todo mundo babando. Afinal, conseguiu mesclar a confiabilidade da mecânica a ar com os traços charmosos do estúdio Ghia.

Falando de motores, sua pretensão nunca foi se tornar o mais rápido, o campeão das saídas de semáforo ou um apetitoso devorador de estradas. Não, o modelo simplesmente desfila. E encanta, literalmente, as pessoas. O primeiro propulsor tinha 1.200 cm³ de cilindrada e apenas 30 cv brutos, além do sistema elétrico de 6 volts.

O tempo foi passando e ele ganhou mais fôlego, com motores de maior cilindrada, como o 1.500 e o 1.600. Mas, como já foi dito, no Karmann-Ghia potência nunca foi um superlativo e nem algo de importância vital.

Durante os anos 70 a chegada da versão TC, de Touring Coupé, inspirada no Porsche 911, não obteve tanto sucesso. Além do conhecido problema de ferrugem, o carro não tinha a mesma personalidade e nem o mesmo carisma da geração anterior. 

Mas o grande diferencial do exemplar desta reportagem é o fato de ser conversível. Sim, também gostamos de andar com vento nos cabelos e sol no rosto. Sem esquecer o que tudo isso representa. Conclusão: puro prazer em dirigir.

Confesso que nunca gostei muito de andar assim tão à vontade, mas passei a apreciar os modelos com essa característica após fazer várias matérias com essas versões. Só andando em um para entender o que eu estou falando.

Bom, voltando ao Karmann, além do charme, o cabriolet – como dizem os europeus – é raríssimo. Só foram feitas 177 unidades e poucas delas estão rodando hoje em dia. Neste estado, então, melhor contar nos dedos.

O clássico modelo ano 1969 pertence ao colecionador Kaiko Botelho e, segundo eu mesmo pude constatar, é um dos exemplares mais bem conservados do país. Quem gosta de cabelos esvoaçantes tem que ler até o final.

O carro chegou às suas mãos há seis anos. Inicialmente era branco. A restauração deixou-o tinindo novamente, com aumento da cilindrada e também a adoção de freios a disco. O charmoso volante de três raios foi feito no Rio de Janeiro e o painel se completa com o rádio original de época.

Esse ano eu diminuí o ritmo dos artigos. Mas confesso que escrever, assim como fotografar, é quase um vício. Uma obsessão, diga-se de passagem. Os dedos têm necessidade de passar pro computador tudo que fica borbulhando na mente durante dias a fio. O melhor é não resistir à vontade.

O melhor da festa, digo, da manhã estava por vir. Abaixamos a capota e saímos para dar um pequeno passeio. O céu estava nublado, mas quem liga pra isso? Nem o ventinho frio pôde estragar esse momento. Realmente o homem nasceu para ser livre e um conversível é umas das melhores expressões desse estado de espírito.

Outra coisa interessante é o fato de que todos conhecem suas linhas. Mesmo quem não gosta – ou não repara muito em automóveis – torce o pescoço para observar o saudável veterano passando. De crianças a velhinhos de noventa anos. 

  
 
O clássico tem fôlego de sobra. O motor, de 1.800 cm³ de cilindrada, recebeu um kit e ficou mais “nervoso”. Os carburadores duplos Weber 40 pedem que o motorista afunde o pé no acelerador. Só um pouquinho, de modo que ele possa respirar aliviado. Aliás, esse tipo de coisa faz bem à saúde do propulsor – e à nossa também

O Karmann-Ghia tem estilo. Ele é um daqueles carros com classe de sobra. No caso deste baunilha, número 62 dentre os 177 produzidos, o prazer se completa com um pouco mais de potência disponível. Agora é só ligar uma velha canção da Bossa Nova no rádio e pegar uma estrada ensolarada. E como diziam os bucólicos poetas arcadistas: carpe diem.

Texto e fotos: Renato Bellote

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  1. 22 de janeiro de 2009
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    show. parabens.

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