NÃO HAVIA LUGAR MELHOR PARA TANTO VENENO


Sem nenhuma premeditação, o Instituto Butantan, destacado centro de pesquisa biológica, foi o local escolhido para reunirmos nada menos do que seis endiabradas e venenosas víboras nascidas nos anos 1970. Como se não bastassem os venenos de cobras, escorpiões e aranhas, estranhas criaturas seriam reunidas no parque do Instituto Paulistano. Quebrando a tradição de AutoClassic, as criaturas deste artigo não são automóveis antigos, mas quebrar tradição já é tradição da coluna (desculpem o trocadilho), que até caminhão antigo já teve como protagonista. O foco do artigo só poderia ser as motocicletas antigas, mas não um tipo de motocicleta qualquer, mas algumas das mais endiabradas equipadas com motores 2 tempos.

Quando cheguei, a primeira das criaturas já estava lá, acompanhada de seu proprietário e idealizador do encontro, José Luiz Stocco, ou simplesmente Stocco, como é conhecido no mundo motociclístico. Amigos desde os velhos tempos, e bota velhos tempos nisto, eu e Stocco ingressamos no universo motociclístico aos 14 anos de idade conduzindo uma diminuta, mas não menos venenosa, Suzuki A50 1971.

Para mim tornou-se profissão por 5 ou 6 anos em oficinas mecânicas e só restou a admiração, já para Stocco virou filosofia de vida e mesmo depois de tantos anos continua empoleirado em sua ruidosa Suzuki GT550. Não satisfeito com apenas uma máquina de 2 tempos, abriu a “Casa das Máquinas”, oficina de restauração especializada em motocicletas japonesas das décadas de 1970/80, cujo carro chefe são as Suzuki GT.

Aos poucos a paz da manhã de domingo do Instituto começou a acabar com o ruído dos motores (todos 2 tempos) e o cheiro de óleo queimado espalhandose pelo ar. Diferentemente dos veículos de quatro rodas de época, que facilmente são relacionados ao seu período de produção, os de duas rodas são atemporais para o público não especializado, que normalmente espera como condutor, pilotos à flor da idade.

A surpresa é total quando se viam surgir cabeleiras (algumas delas bem longas) prateadas por debaixo dos capacetes. Mais surpreendentes eram a histórias que surgiam de cada um, todos muitos diferentes, alguns deles responsáveis pais de família, com as mais variadas profissões, mas ao mesmo tempo semelhantes quando palavras comuns escritas no Aurélio, como janela, gaiola e flauta, ganhavam um significado único no universo 2T, compartilhado, aliás pelos amantes dos automóveis e motocicletas (sim) da marca DKW.

O segundo a chegar foi Marcelo Menezes em uma Yamaha RD350 1974, atualizada com a mecânica da RD350LC. Também conhecida como “Viúva Negra”, alcunha justificada por possuir um motor arisco e pouco freio. Problema minimizado por Marcelo, através da adaptação de freios mais eficientes, a disco

Não poderia ficar de fora a maior 2 tempos de sua época, a imponente Suzuki GT750, ano 1976, de propriedade de Ricardo Cavaton, há dez anos com a imponente motocicleta muito original, que trás além do incomum motor 2 tempos para seu porte, um grande radiador de água que a faz parecer ainda maior.

Juntos chegaram Carlos Cioffi e Eduardo Tavares, os dois com GT550, anos 1975 e 1974, a primeira há 22 anos com o mesmo proprietário e sem restauração, uma verdadeira survivor. A segunda há 5 anos com Eduardo foi muito bem restaurada dentro dos padrões de originalidade.

Por último, talvez a mais exótica, uma GT550 1973 no mais puro estilo Café Racer, de propriedade de Cláudio Imperatore. Minucioso na customização de sua motocicleta, Imperatore frisa sua preocupação com a proporção das linhas, através de peças confeccionadas artesanalmente para sua máquina.

Quem bem conhece este tipo de veículo, sabe de seu ruído característico e estridente, muitas vezes maximizado pelos proprietários por meio de escapes dimensionados. Não demorou muito para um segurança do Instituto se aproximar do grupo, mas para a surpresa de todos, ele sacou de seu celular e começou a registrar as imagens das beldades ruidosas. Portanto, vale a máxima de que mesmo veículos símbolos de rebeldia de décadas passadas, hoje podem despertar sentimentos e simpatia (ou pelo menos curiosidade) de alguns, sejam eles veículos de duas ou quatro rodas, com motores de dois ou quatro tempos, o que importa é a paixão que despertam nas pessoas.

Até a próxima ruidosa e perfumada (com óleo dois tempos) coluna.

Wagner Coronado.

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