“Devoto do motor” abre as portas do seu templo


Hoje, o empresário administra o “Rusty Barn”, um complexo de galpões com 38 mil m2, em Cotia, para reunir carros e apreciadores.

Só um maluco por automóveis poderia construir um paraíso do motor e resolver os problemas dos alucinados pelo cheiro de óleo queimado.

Carros podem ser uma verdadeira paixão. Para alguns, essa paixão é muito mais do que o próprio carro e seus motores ou um estilo de vida e suas características. Para esse grupo de verdadeiramente apaixonados, o carro é: devoção.

Há 35 anos, num bairro afastado do centro de São Paulo, um menino, filho de imigrantes alemães, procurava por algo para passar o tempo. Em uma época em que o hábito de jogar videogame ou assistir à televisão ainda não fazia parte do dia-a-dia da maioria das crianças, o pequeno Ricardo Berg andava pelas ruas de terra do bairro, observava vários tratores abrindo condomínios e inventava brincadeiras junto com os amigos. Uma delas iria marcar a sua vida para sempre: com pedaços de ferro, solda, pneus de carrinho de mão e restos de uma lambreta, Ricardo construiu seu primeiro jipe. Tudo isso com apenas 12 anos de idade.

A partir desse momento, sua paixão por carros só cresceu. Após 24 anos trabalhando e 5 como presidente indústrias Corneta de ferramentas e autopeças – que foi de sua família por várias gerações -, e outros 3 anos como diretor da ABFA – Associação Brasileira da Indústria de Ferramentas e Abrasivos, Ricardo, hoje com 47 anos, concilia seu lado empresarial e metalúrgico com os objetos de sua devoção: os carros. Berg, também conhecido como Bigo, investiu em um conjunto de galpões em Cotia (SP). Batizado de “Rusty Barn”, o local é um complexo com 38 mil m2 que é um verdadeiro santuário do motor, com verdadeiras antiguidades, como Porsche 1974, Jaguar Etyp 1969 , BMW 2002 e Graham Paig 1929.

No “Rusty Barn” não existem problemas com um motor que não possam ser resolvidos. Berg é especialista em solucionar os quebra-cabeças relacionados a restaurações e consertos, além de colocar esses carros especiais para andar. Quem precisa achar um carro antigo, encontrar uma peça única, guardar seu carro de corrida, restaurar uma Kombi, conseguir sua placa preta, enfim, pode contar com o Berg e sua equipe. Ocupados por algumas das melhores restauradoras e oficinas especializadas do Brasil, os galpões do “Rusty Barn” vão reunir devotos que poderão conversar, arrumar, comprar, vender, trocar, desmontar, montar, restaurar e, principalmente, viver em plenitude a sua paixão.

A “partida”
Como grande parte dos adolescentes, Berg aprendeu a dirigir bem antes da idade delimitada por lei. Aos 14, ele já guiava. Mas não foi qualquer carro, e sim, um Ford 1929, o qual possui até hoje. “Este carro está na minha família há mais de 50 anos e estava encostado no fundo do terreno. Aos poucos, comecei a restaurá-lo. Muitas vezes, quando o desmontava, não conseguia montar de volta. Comecei a procurar e conhecer pessoas que entendiam da coisa e fiz amizade com mecânicos e colecionadores. Aí começou meu gosto por tudo relacionado ao mundo automotivo”, conta Berg.

Desde cedo, Berg participava dos eventos do mundo motorizado. “Aos 17, fui à Brasília para um evento organizado pelo Clube do Fordinho, que teve o propósito de conseguir a isenção do impostos para autos antigos, que ainda é válido nos dias de hoje. Fui com um amigo que acabou sendo companheiro em várias aventuras”.

O Ford 1929 “o apresentou” para várias pessoas, em especial, um colecionador de carros antigos ingleses. Apesar dos Jaguares MG serem os preferidos do colecionador, Berg se apaixonou pelos Land Rovers e passou a colecioná-los. “Na época, o mercado automotivo era fechado, permitindo apenas fabricantes nacionais comercializarem seus produtos. Esses carros mais antigos importados não valiam nada. Problemas com a bomba elétrica e reposição de peças faziam os proprietários, literalmente, largarem os carros. Por serem feitos boa parte em alumínio, não apodreciam. Apesar disso, junto aos meus amigos, comecei uma coleção que, mais tarde, se ampliou para outros exemplares ingleses”.

Primeiras “estradas”
Após terminar a escola, antes de descobrir qual faculdade faria, Berg ganhou dos pais uma passagem de ida e volta para Londres. Através de um contato de seus pais, ele conseguiu um estágio de quatro meses na subsidiária da Mercedes Benz, em Milton Kaisn, ao norte de Londres. “Meu trabalho era treinar as concessionárias com pós-vendas. Fiz bons amigos por falar alemão e logo já tinha convites para estender meus trabalhos na companhia, mas agora na Alemanha”, conta.

Entretanto, com a “fase Land Rover” em alta, Berg tinha outros planos e fez como vários brasileiros: se mudou para Londres onde trabalhou como garçom, jardineiro e lixeiro. Seu objetivo: economizar dinheiro e viajar para a África para “passear” de Land Rover. Após juntar dinheiro suficiente, Berg comprou uma passagem de trem de Londres a Casablanca (Marrocos). “Ao me hospedar em um albergue, conheci uma turma que também gostava de carros e convenci as pessoas a participarem do ‘passeio’ e bancar parte da minha aventura. Após acharmos um Land Rover 109 1974 para alugar, saímos de Oarzeset – última cidade com água. Foram três semanas conhecendo a região”, conta.

Após essa aventura na África, Berg retornou à Europa. “Passei pela Alemanha para encontrar meus amigos da Mercedes, que me ofereceram um curto estágio de dois meses para Piloto de Testes. Parece grande coisa, mas, no meu caso, ficava dando volta numa pista a 40 por hora, tendo de frear e passar em buracos, mantendo uma certa frequência. A vantagem era quando tínhamos de ir a Hokenheim ou Nurbungring para testar velocidades. Nesta época fiz meu curso de pilotagem”.

Em 1991, a mesma equipe de engenheiros da Mercedes veio ao Brasil para fazer testes de freio ABS em ônibus. O motorista desses ônibus foi Berg, que rodou 5.700 km nas estradas brasileiras. Nesta época, sua coleção já contava com três Land Rovers e um Ford 1929.

Na estrada e na oficina

A partir de 1992, após adquirir experiência com diversos tipos de motores e estradas, Berg passou a participar de competições automobilísticas, como o Enduro das Montanhas, a bordo do Land Rover 109. Quatro anos depois, após alugar seus dois Land Rovers para uma propaganda da Mesbla, foi almoçar com amigos e soube que um rally de motos chamado “Rally dos Sertões” incluiria carros pela primeira vez. “Eram 5 mil km de São Paulo a Fortaleza. Nos informamos sobre inscrição, trajeto, categorias. Mas seria complicado participar por falta de dinheiro. Foi quando os dois Land Rovers voltaram da locação e fomos surpreendidos: estavam pintados de zebra. Ligamos para a empresa que nos pagou para repintar os carros e o valor era o que faltava para a entrarmos na competição. Assim nascia a Equipe Zebra, com várias participações no Rally dos Sertões e competições de antigomobilismo até os dias de hoje”.

Entre os eventos que participou, Berg destaca: Enduro das Montanhas de 1992, com o Land Rover 109; Rally dos Sertões de 1997, com um Land Rover do mesmo ano; Encontro de motos Harley-Davidson em Penedo (RJ) em 1998, com uma HD Chopper 1947; Rally dos Sertões de 2002, com um protótipo de carro que ele mesmo construiu; Rally dos Sertões 2005, com a Equipe VW de caminhões alcançando o 5º lugar; Clássicos de Competição 2009, uma prova de velocidade para carros antigos em que ele dirigiu um Mini Cooper GT 1974; Clássicos de Competição 2010, com um Porsche Spyder (Chamonix); Mil Milhas Históricas 2011 de Mini Cooper 1965; e Mil Milhas Históricas 2012.

Além das corridas, Berg se dedicou à sua coleção com compras e restaurações de verdadeiras relíquias. Ele adquiriu o Mini Cooper 1965 em 1993 e passou um ano restaurando. Após a restauração, comprou um Bel Air 1957 e o Land Rover 107. E não importa o quão longe está o objeto de seu desejo, Berg sempre vai até o local, como aconteceu em 2002, quando foi até Manaus para comprar um Mini Moch.

Em 2009, Berg restaurou um dos únicos carros elétricos produzidos no Brasil, o Gurgel E400. No mesmo ano, construiu e confeccionou quadros para Harley-Davidson e motos inglesas. No ano seguinte, restaurou uma Triumph Spitfire.

Dias de hoje

Ao longo de sua carreira, Berg ficou tão conhecido no mercado e entre os admiradores de carros, que, em 2013, foi convidado para participar de um dos episódios do programa Britânico Wheeler Dealers, que se passava no Brasil (). Agora, Berg continua colecionando Land Rovers (atualmente, possui 12 modelos da marca) e outros tesouros, e o “Rusty Barn” é o espaço que pretende reunir outros devotos como ele.

 

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