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Porque não fui a Águas de Lindóia...

Meus leitores que me perdoem, mas tenho muitos motivos odiosos que não me permitiram ir a Lindóia.

Não fui porque odeio multidões de pessoas normais, o que dizer de aglomerações de antigomobilistas.

Odeio o cheiro de mofo que exala das feiras de peças usadas de carros antigos.

Odeio quando ouço do vendedor- após pedir um absurdo por uma calota toda podre - que a dita cuja é original e está muito boa e é peça única.

Odeio ver um ex-colega levando a família para comer no pior restaurante da cidade, depois de ter “investido” uma grana violenta naquele modelo raro.

Odeio ver um marmanjo de calça moleton acima do umbigo reclamando da injustiça por seu carro não ter sido premiado, pois prova que o mesmo ainda é um bobinho, infantil, que não conhece as regras do jogo. Ele deveria saber que é assim no mundo todo. It’s the name of the game, buddy!

Odeio quando vejo a mulher de um ex-colega antigomobilista fingindo que adora estar ali, tendo que todo dia dar uma passadinha na feirinha de peças para ver se encontra o marido desaparecido desde o café da manhã, cujo celular esqueceu de carregar.

Odeio ter que pagar tanto pedágio. Odeio a Dutra e a confusão de placas para chegar até Bragança Paulista. Aliás, odeio as churrascarias daquela cidade-passagem para o evento.

Odeio chegar a Lindóia e descobrir que ainda falta um pouco para Águas de Lindóia.

E se odeio tudo isso é porque um dia eu também já fui, digamos assim, metidinho a besta. Depois que me converti, abri mão desses valores deturpados que muitos ex-colegas ainda possuem e resolvi resgatar o tempo perdido fazendo boas ações. A primeira delas foi doar meu estoque de peças antigas de reposição. Depois que o terceiro caminhão de entulho partiu da minha garagem, confesso que me deu um friozinho na barriga, mas eu sabia que estava exercendo a minha responsabilidade social, para ser bem atual. Vendi barato... quase dei (as peças!).

Quero deixar claro que não é nada contra a cidade de Águas de Lindóia e nem contra os incansáveis organizadores do evento, onde já passei períodos memoráveis com a patroa, respirando ar puro e bebendo litros de água mineral Petrópolis, on the rocks. Fora a lama quando chove, a cidade é realmente muito aprazível para esse tipo de encontro, como também São Lourenço e Araxá, essa sim, a minha preferida, por me trazer à mente os meus áureos tempos em Las Vegas.

Aliás, fiquei bastante sentido quando a Teresa Gago da Autoclassic me disse que haveria um encontro dos colunistas e eu teria a grande oportunidade de conhecer, in loco, a colega lusitana Ana Maria, que tanto me inspira com seus sábios vernáculos sobre carros antigos. Mas a vida é assim mesmo, Ana, feita de encontros e desencontros. Estou com planos de ir a Portugal ainda este ano e não me furtarei de procurá-la, se é que permites dirigir-me a ti com tamanha intimidade.

P.S.: Comentei na última coluna que, se eu tivesse saco, iria falar sobre uma viagem que fiz à Índia, há alguns anos. Como vocês perceberam, não tive saco mesmo, pois o meu ácido úrico aumentou, a pressão subiu e o resto desceu. E também porque descobri que um grande colecionador de Cadillacs brasileiro também já esteve lá, bisbilhotando a coleção do Marajá (desculpem a rima, mas não foi proposital).

Até o próximo mês! Espero.

Tony Ferugi

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