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  CLÁSSICO DO MÊS

Oldsmobile Series 70 1946
por: João Paulo Simonetti
Taubaté - São Paulo- Brasil

A Oldsmobile foi uma das marcas mais tradicionais no quesito de automóveis de luxo, nos EUA. Fundada em 1897, por Ransom E. Olds (daí o nome – ‘oldsmobile’, ‘móveis de Olds’), os carros da marca foram manufaturados na Olds Motor Vehicle Company, sediada em Lansing, no estado de Michigan. Curiosamente, um dos carros mais antigos do Brasil é dessa marca, e fora restaurado pela própria General Motors do Brasil, já em meados dos anos 70. Após a compra pela REO Motor Company, a General Motors adquiriu a Olds em 1908. Ela logo assumiria o posto de carro de Luxo médio da empresa, que, posteriormente, havia na Buick, LaSale e Cadillac, respectivamente, suas marcas acima desse posto. A partir da década de 30, os modelos da Oldsmobile passaram a ser chamados por um binômio, com o fito de discernir qual seria a motorização e carroceria de cada automóvel. O tamanho das carrocerias seria o primeiro número do modelo/série (Series ‘60’, ‘70’, ‘80’ ou ‘90’), deixando o algarismo final para identificar a mecânica (‘6’ para o motor de seis cilindros em linha e ‘8’ para os de oito cilindros em linha). Doravante, teríamos a designação do modelo na conjunção da série com o número da mecância. Por exemplo: Oldsmobile 78, o qual corresponde a um carro de carroceria grande com motor de oito cilindros em linha. Um outro ponto importante é a observância do ano/modelo da série. Por ser uma série 70, tem-se noção que é de uma  carroceria fabricada de 1946 até 1948.

As inovações da marca

Em 1937, a divisão Buick desenvolvera o sistema de câmbio semi-automático. A General Motors resolveu utilizar este novo sistema de marcha, - chamado de “Autmoatic Safety Transmission” - primeiramente nos carros da divisão Oldsmobile. Este sistema, até então inovador, permitia ao condutor uma direção mais confortável. Não obstante, havia uma espécie de embreagem, com a qual poderia se acionar a transmissão, dividida entre “Low” (lenta) e “High” (alta). A embutidura seria simples: primeira e segunda para “Low” e terceira e quarta para “high”. O sistema agradou muito ao consumidor, obrigando a General Motors a procurar maiores inovações.


Essas vieram logo no modelo de 1940, da Oldsmobile: o câmbio totalmente automático, chamado HydraMatic, contando com quatro marchas à frente e uma à ré. Têm-se, nessa vicissitude, outorgadas à Oldsmobile as primeiras caixas de transmissão semi e totalmente automáticas.  A Oldsmobile, assim como as demais subsidiárias da General Motors Company (também as demais fabricantes dos EUA), cessou sua produção de carros em 1942, em virtude da segunda grande guerra. E foi só após o hiato de quase quatro anos que a empresa trouxe seus novos modelos às lojas.

No Brasil

A procura de carros ensandecia a cabeça do consumidor, que ficara três anos e meio sem alguma novidade. Por conta disso, poucos modelos de luxo foram exportados para o Brasil, em 1946. Derrocando-me a alguns fatores históricos, peço ‘data vênia’ para citar um fato sobre a época. Com o advento do Plano Marshall, ou o “Programa de recuperação européia” após a destruição de alguns países durante a segunda guerra, o Brasil começou a receber, em 1947, uma considerável frota de carros, tanto dos EUA quanto de países Europeus (principalmente da Inglaterra), mediante a troca por produtos que aqueles países reclamavam para seus subsídios. Foi nessa época que chegaram muitos carros diferentes em nosso país, inclusive modelos de luxo poucos recebidos no ano anterior. Isto seria mais uma prova de quê os modelos do ano 1946 - de luxo, em especial – tornar-se-iam extremamente raros nos dias de hoje, exatamente pelas poucas unidades recebidas naquele ano de 1946.



Porventura, um senhor chamado Alfred Schaeffer, um militar apaixonado pela marca, comprou, zero quilometro, um modelo 76, fabricado em 1946. Ele, que só tinha carros da marca, esperou por três anos e meio até ter algum modelo novo. A paixão foi enorme, a ponto de guardar o carro por um bom período. Este fato poderia estar à deriva do tempo, se não fosse o documento do automóvel ainda estar com o nome de seu primeiro dono, quando nosso amigo Roberto Ruschi, do Rio de Janeiro, comprou-o, despertando certa curiosidade pela história do automóvel.

Clássico do mês: Oldsmobile Series 70, modelo 76 Dynamic Cruiser.

Ruschi sempre ‘namorou’ com o carro, quando o via guardado em uma garagem, em Botafogo. Um belo dia, nosso amigo resolveu parar e conversar com o proprietário, naquela clássica tentativa de compra. Após certas idas e vindas, o fato fora consumado: Ruschi o compra, por volta do ano 2000. A Oldsmobile, ainda totalmente original, estava na cor azul, mas um bocado judiada pela ação do tempo, o quê abriu uma possibilidade – ou seria dever? – de uma restauração, para a trazer novamente à integridade de outrora. Ruschi comentou que a restauração durou cerca de 2 anos e pouco. Pintou o carro nas cores branco marfim com teto marrom, uma das combinações existentes na época. No interior, o carro recebeu um estofamento de casimira, com o ‘rodapézinho’ forrado em couro - Uma curiosidade: a plaqueta de identificação da carroceria (Body by Fischer) estava intacta e em seu devido lugar! Mas este processo moroso não foi fácil: Ruschi andou por um tempo com pneu de camionete, pois desconhecia que apenas a mesma medida de roda não bastava para caracterizar-se original.


Após alguns toques dos “Cardeais”, como o já homenageado sr. Muricy, Ruschi colocou, dentre outras coisas, um jogo de pneus banda branca, 650 x 16, mas, agora sim, os originais do carro. Como em toda restauração, houve outros empecilhos maiores: o carro estava com motor de arranque de 12V, o quê fazia a partida em uma forma mais “abarroada”. O fato gerou certo problemão: a cremalheira acabou por se quebrar por conta dessa força exagerada, já que o original do carro é dínamo e a voltagem é seis, não doze. Graças ao senhor Romeu Siciliano, daqui de São Paulo, Ruschi conseguiu sanar este problema, deixando a sua Oldsmobile rodando de forma excelente. O carro, como já citado, é uma 76. Ou seja: carroceria grande (torpedo, como é conhecida por alguns), mas com motor de seis cilindros em linha. O câmbio é o Hydramatic de 4 marchas à frente e uma à ré.

Por fim, gostaria de agradecer ao amigo Ruschi pela cessão de algumas horas de seu dia para batermos um papo. Pude descobrir que, além de um carro raro, trata-se de um carro com história. Como não posso deixar de citar, Ruschi foi muito além da restauração do carro: ele procurou pela história do mesmo, para mantê-la viva por mais alguma geração. Mediante informações do neto do sr. Schäeffer, ele descobriu que o carro rodou – literalmente! – o mundo. Algumas fotos dataram a visita do carro por vários lugares, inclusive, pela Europa. É uma devida homenagem, mais uma vez, a uma raridade e, outrossim, ao seu proprietário que mantém mais uma bela história automotiva viva.

Nos vemos em Lindóia! Até a vista!

 

João Paulo Simonetti
simonetti@autoclassic.com.br

 

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