“Um homem sem lembranças é um homem perdido”, já disse o dramaturgo francês Armand Salacrou. E elas nada mais são do que fragmentos do passado vagando em algum lugar da memória, prontos para virem à tona em um momento propício.
Comecei essa matéria com um pouco de nostalgia, já que o clássico em questão, um Dodge Charger R/T, também traz recordações sobre um outro carro, quase idêntico, que fez parte de minha vida quando ainda estava no ventre materno e nos primeiros anos da infância.
O charmoso exemplar prateado ano 1976 pertence ao advogado Gianfranco Cinelli, de São Paulo. Aliás, sua trajetória com a marca vem de longe, como ficou claro logo no começo da conversa: “Meus pais tiveram Dodge. Tenho ótimas recordações de viagens ao interior de São Paulo e ao Guarujá no Dart sedan azul da minha mãe”, conta.
Cheguei ao seu prédio em um sábado com céu encoberto. Ele já me esperava por ali e descemos até o segundo subsolo. Lá no fundo, com “cara de mau”, em um canto mais escuro, o mito repousava. Olhei o vinil, a carroceria prateada – uma cor rara, por sinal – e o coração bateu mais forte. “Aqui no edifício existem vários carros antigos”, comentou o Gianfranco.
Abri a porta – pesada – e já pude notar o excelente estado de conservação. Entre os bancos, o câmbio automático se destaca. Ao dar a partida, o V8 desperta. O ronco tem personalidade, mas sem causar muito estardalhaço. “Só troquei os abafadores”, diz o dono. Perfeito.
Saímos da garagem. A visão do capô dá uma idéia do porte do esportivo. O trânsito parou por um momento na rua estreita de mão dupla. Respeito pelo Dodjão. Uma patinada e ele encarou a subida íngreme com folga. O interessante dos veículos automáticos – também chamados por alguns de hidramáticos – é notar o ponteiro do conta-giros, que oscila sem parar.
Mas esse não é o primeiro Mopar do advogado. “Já tive outro Dodge Charger R/T 76, branco valência, com vinil e interior marrom. Mas quando conheci este prata foi amor à primeira vista”, recorda. E prossegue: “Este carro tem procedência, com manual do proprietário. Teve apenas um dono até 2002”. Tanto é que o odômetro marca apenas 77 mil quilômetros originais.
O sobe e desce do bairro de Pinheiros deixou claro que o propulsor 318 V8 com 215 cv de potência bruta tem torque de sobra. O modelo é completo e conta, inclusive, com ar-condicionado, opcional que não tinha tanta importância por aqui na década de setenta. E seguimos adiante até o local das fotos.
Enquanto escrevia o artigo me lembrei da frase preferida dos Chryslermaníacos norte-americanos, que diz: “Mopar or no car”. Em bom português, seria o mesmo que escolher entre desfilar a bordo de uma máquina como essa ou andar a pé. Um verdadeiro lema para eles.
A rua escolhida para a sessão fotográfica estava vazia, como de costume. Neste ponto é importante lembrar que a paciência dos colecionadores é fundamental para que o trabalho fique perfeito. Muitas vezes é preciso mudar os carros de posição diversas vezes. Explorar vários ângulos é essencial.
Enquanto estávamos por lá apareceram dois curiosos para conferir o modelo de perto. Isso é comum também nos encontros. “Por se tratar de um exemplar nacional, muitas vezes sou abordado por pessoas que tiveram na época um deles e ainda hoje são admiradores do carro”, revela. “Certa vez, em uma oficina mecânica na zona oeste, um senhor me fitou nos olhos e começou a contar com muita emoção que havia trabalhado na Chrysler do Brasil e havia ajudado a desenvolver parte do sistema de exaustão dos Dodges. É impressionante a simpatia e muitas vezes a paixão dos brasileiros pela marca”, conta.
O advogado me disse também que a pergunta mais comum é se o carro “bebe” muito. Alguns até sugerem a instalação de um kit gás. “Não, não, o Dodjão não merece”, responde com bom humor. Mas alguns não ficam só nas perguntas. “O pior é aquele tipo de curioso que dá uma batidinha na lateral do carro e diz: “esse tem lata”. É complicado”, revela.
Como digno exemplar de coleção, esse R/T já ostenta a placa preta. Além disso, o dono costuma fazer algumas viagens e passeios com o Chrysler Clube do Brasil. Também é freqüentador assíduo do Mopar Nationals, evento similar ao norte-americano, que teve a última edição realizada em Itupeva.
Mais detalhes merecem observação. As rodas de quatorze polegadas – com sobre-aros cromados – têm um belo desenho. Elas estão calçadas com pneus Cooper Cobra. A grade dianteira é a marca registrada da versão e confere ao mito a sua famosa “cara de mau”, a qual me referi no quarto parágrafo. Com os faróis acesos então, a magia se completa. Imagine essa visão aterrorizante no seu retrovisor, pedindo passagem.
O Charger – definitivamente – tem estilo. E mostra vitalidade após trinta e um anos de fabricação. No caminho de volta, um pequeno burnout e saída de lado deixaram clara sua verdadeira vocação de muscle car. Além, é claro, de duas listras pretas no asfalto.
(*) Renato Bellote , 29 anos, é bacharel em Direito e assina quatro colunas sobre antigomobilismo na internet. O autor tem textos publicados em nove países de língua espanhola e é correspondente do site português Lusomotores.
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