A partir de agora falaremos dessa curiosa e mágica relação entre o homem e seu engenho. O automóvel quando foi criado era considerado um produto de alto luxo, mas com o passar do tempo tornou-se peça indispensável à vida moderna.

Ao longo da história a engenharia automotiva evoluiu muito, tornando esse invento símbolo de autonomia e praticidade, produzindo máquinas clássicas cada vez mais velozes e requintadas, ícones de poder, luxo e principalmente paixão, que serão eternamente cultuados.

O homem produziu ao longo do tempo diversos objetos de consumo que, por uma ou outra razão, obtiveram por notoriedade o status de Cult Objects.
Objetos que transcendem o bom design e de forma quase inexplicável, fascinam o consumidor obtendo assim um sucesso de vendas ilimitado.

“Cult Object – inglês, cult: culto, devoção, veneração”. Objeto produzido industrialmente, cujo design tem características de excelência que vão além da simples funcionalidade. Os mais puros recursos de design são postos em jogo e o cult object encerra uma mensagem capaz de individualizá-lo para pessoas que valorizam suas qualidades.

Um Cult Object genuíno, por natureza tem que ser produto de linha, que isso seja claro em sua forma e acabamento; nunca artesanal, produzido pela falível mão humana. Ele precisa dar idéia que existem ou existiram muitos outros iguais a ele. Pertencem a uma classe de artefatos que exercem uma poderosa, porém misteriosa fascinação. Por definição um objeto de culto é ligado a um grupo de insiders, bastante unidos por secretos sinais reconhecíveis apenas por iniciados. Há um elemento, por exemplo disso tudo, no Jeep Willys da 2ª Guerra Mundial, na famosa caneta tinteiro Mont Blanc, no isqueiro Zippo, conhecido como “instant cult”- peça de sedução imediata, no sofá Maralunga de Vico Magistretti, o relógio de pulso Santos de Cartier feito especialmente para Alberto Santos Dumont e mais tarde o Rolex, o famoso óculos de sol Ray-Ban, um ícone de design do século XX, a calça Levi´s 501, a caneta BIC, além de muitos outros produtos.

No segmento automobilístico o Jeep, veículo criado para todos os tipos de terrenos, justifica hoje o enorme sucesso de vendas das linhas off-roads.
O desempenho do inglês Land-Rover nas mais difíceis provas o elevou a status cult em sua categoria. O atual sucessor norte-americano do Jeep, o Hummer um projeto militar está se revelando um novo cult. Sua versão civil alia atributos militares ao conforto de um veículo de luxo. Sair para uma boate ou ir a um supermercado com o Hummer desperta, mesmo inconscientemente, um imaginário de aventuras.

A lista de automóveis Cult é imensa, a maioria se notabilizou pela atração do seu design, uns pelo desempenho, outros pelo requinte, ou até por tudo isso. Os clássicos bem conservados formam, por seu lado, o mundo das raridades disputadas hoje por colecionadores como verdadeiros objetos de desejo.

O fenômeno Fusca, por demais conhecido, sucesso consagrado por seu projeto de engenharia simples: motor refrigerado a ar, suspensão independente por barras de torção e manutenção barata. E atualmente não é raro se ouvir falar de “um fusquinha 67, praticamente 0km, guardado a sete chaves numa fazenda…”

O Kdf – Kraft durch Freude Wagen, “carro da força pela alegria”, em alemão, como era chamado o modelo original do Professor Ferdinand Porsche, foi encomendado pelo então governo nazista alemão, que ao perceber seu grande potencial para propaganda do regime, o rebatizou de Volkswagen que significa “o carro do povo”.

Ironicamente, ao fim da 2ª Grande Guerra, tanto ingleses e americanos olharam o Fusca com desdém, diziam ser bizarro demais para ser levado a sério. Em 1946, a Comissão de Aliados não se impressionou ao conhecer a fábrica de Volfsburg: “Um carro como esse permanecerá popular por uns dois ou três anos, se muito. Produzi-lo comercialmente será um empreendimento totalmente anti-econômico”. E o enviado americano reportou: “Mr. Ford, eu não acredito que o que nos está sendo oferecido valha um tostão”. O resto é história.

A forma original do Fusca, de estética discutível, tinha algo dos carros americanos dos anos 30 e muito lembrava o esquisito irmão tcheco Tatra.
Um design arcaico, que surpreendentemente, se manteve ao longo de 70 anos, com pequenas modificações.

Se o Fusca fosse criado hoje, como seria? Impensável para a maioria das pessoas, redesenhar o Fusca foi o desafio proposto em 1993 pelo designer J. Mays, do studio de design da Volkswagen americana em Simi Valley, Califórnia, a seu diretor, Freeman J. Thomas apostou na idéia e juntos tocaram o projeto em segredo, usando a plataforma do Golf. Ao ver o resultado, apresentado como “carro conceito” em homenagem ao Beetle- “besouro”, apelido do Fusca, o público do Detroit Auto Show exigiu sua fabricação, através de milhares de pedidos. Seguiram-se o Genève e o Tókio Auto Show, com a mesma reação entusiástica. O Concept One, com o nome oficial de New Beetle, foi lançado em 1998, concentrada a sua fabricação em Puebla no México.

Inegávelmente o Volkswagen / Beetle foi um dos maiores fenômenos de venda e também um dos mais importantes Cult Objects do século XX.

Ao longo da história alguns automóveis deixaram sua marca, seu design, sua personalidade no inconsciente coletivo da humanidade.
Celebramos no cinema, na publicidade e na literatura, não são meramente peças de metal inanimado.

Em breve continuaremos a falar dessa curiosa e mágica relação entre o homem e seu engenho, eternamente cultuado.

Paulo D’Abreu