HODGE PINGUIN 4 – Por A.P. Filipe (Oeiras – Portugal)

HODGE PINGUIN 4
“Toda a vida é composta de mudança…..”
Olá a todos, um beijo saudoso com mil desculpas pela ausência. A vida dá algumas voltas e, às vezes, precisamos de construir algo novo, perpetuar a vida no sonho e realizar, quem sabe, o impossível. Nos últimos tempos todo o meu tempo foi pouco para concretizar um sonho antigo, a mudança de casa, um motivo algo egoísta mas, espero que compreendam. Mudar dois miúdos, em meio do período escolar foi complicado e ainda mais quando um cachorro veio completar o leque familiar. Mas o prometido é devido e vou-vos contar a história do carro fantástico do meu amigo António Brito.

O carinho com que nos abriram as portas de sua casa cativou-nos e rendeu-nos. Aos poucos fomos invadidos pelo odor agradável de um delicioso bacalhau, totalmente cozinhado em forno solar. Uma assadura longa e lenta preparada com a antecedência devidas fizeram as nossas delícias. A conversa deslizou gostosa, o António e a esposa são pessoas verdadeiramente fascinantes, explicaram-nos a preceito os segredos de tão deliciosa confecção e o António falou-nos de toda a actividade que exerce no sentido de sensibilizar a comunidade para uma maior utilização da energia solar. Como não podia deixar de ser a conversa desviou-se para os carros.

Pela janela da cozinha víamos a sua garagem, cuja decoração cuidada, emoldura a preceito alguns dos seu belos carros. Podemos ver um Ford A Roadster de 1928, um Posche 356 Pré-A de 1951 (o mais antigo de Portugal, ainda com um motor de 1100cm3), um Fiat 1200 cabriolet de 1962, um Simca 1200S de 1969, um DAF 55 coupé de 1970 e encanto dos encantos uma pequena maravilha de viatura, um Hodge Pinguin 4 solar de 1991.

Os Hodge Pinguin foram construídos na fábrica da Euromobil, na Alemanha, entre 1988 e 1993. Têm um motor eléctrico de 7, 4 Kw que funciona a 60 volts. Possui 10 baterias de tracção de 6 volts cada e ainda uma bateria de 12 volts. Mas, o Hodge do Brito tem uma particularidade única, como não podia deixar de ser, o carro deste homem apaixonado pela energia solar, tem 5 painéis solares, que recarregam 10 a 20% das suas capacidades energéticas. Esta verdadeira preciosidade é o primeiro automóvel eléctrico e solar com matrícula portuguesa.

Foi importado em 1991 por Mariana Kasper, ex-emigrante da Suiça, tendo ficado quase 2 anos imobilizado na Alfândega portuguesa. Naquela altura a lei de imposto automóvel não contemplava a existência de outros veículos que não os movidos a gasolina e a diesel, o veículo ficou retido, primeiro na Alfândega, durante 7 meses, sendo a sua feliz proprietária agraciada com os custos da sua retenção. Como se não bastasse a longa imobilização prejudicou seriamente a vida das baterias, que devem ser recarregadas pelo menos uma vez por mês.

O processo continuou por mais alguns meses e só em finais de 1992, após várias queixas e requerimentos da proprietária ao Ministro do Ambiente e á Direcção Geral de Alfândegas e principalmente, por estas terem sido reforçadas com artigos em importantes jornais da altura, acabou por ser legalizado de uma forma verdadeiramente peculiar. A ideia iluminada da Direcção Geral de Alfândegas foi considerar a D. Mariana Kasper deficiente, concretizando desta forma o processo, na realidade deficiente mesmo só o processo burocrático exigido, para colocar um veículo não poluente a circular.

Nas ruas de Lisboa, começou então a sua nova vida, percorrendo nos primeiros anos uns silenciosos e limpos 5.560 Kms. Ao fim dos quais a sua proprietária decidiu cedê-lo às oficinas da Escola Profissional Madre de Deus, em Lisboa, para ser devidamente estudado põe alunos de mecânica e electricidade, tendo permanecido lá por cerca de 10 anos.

Em 2006 foi adquirido pelo meu amigo Brito que o restaurou a preceito. As 10 baterias de 6 volts foram substituídas por baterias Trojan de 6 volts e 225 Ah que possibilitaram uma quase duplicação de autonomia de 70 km para uns aprazíveis 120 km. A carteira, essa agradece, com 1 € percorre 120 Km.

Pode ser visto frequentemente, deslizando por terras algarvias. O António descreve-nos a sensação única de conduzir sem barulho, escutando apenas o suave roçar dos pneus no negro do asfalto.

Tempo de mudança, de encarar novas perspectivas e novos rumos. De construirmos no presente um futuro melhor. Sem nunca nos esquecermos que não existem grandes problemas, só vontades pequenas.

Daqui de terras lusas um abraço saudoso para os meus amigos brasileiros e ao António Brito um obrigado por me deixar partilhar esta história convosco.
Saudações clássicas
AP Filipe
Nota – Reportagem gentilmente facultada pelo Dr. António Brito, professor Universitário de Direito do Ambiente. Coleccionador de automóveis antigos. Organiza exposições regulares sobre Energias Renováveis e de Mobilidade Sustentada, no Algarve e na Madeira.


























































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