Sou carioca de nascimento, brasiliense por convicção, irritantemente dedicado ao que faço.
Depende da medida de tempo. No caso, 35 anos. Não gostava de carros velho e entrei nisto para pacificar uns arranhões de relacionamento pessoal e profissional.
Eu era um bom amigo e depois advogado do Roberto Lee, pai e mãe do movimento antigomobilistico. Achava um folclore quando ia a S Paulo e o Lee me dedicava atenções, mostrava automóveis, apresentava pessoas, todos envolvido neste colecionismo.
(o termo antigomobilismo foi criado anos depois pelo Malcokm Forest e eu consegui incluí-lo no dicionário Houaiss, formalizando-o ).
Certa feita, resolvi um assunto para o Lee e dispensei-o dos honorários. Ele, para demonstrar seu agradecimento, mandou-me escolher entre três veículos para restaurar que estavam no Museu em Caçapava: um Buick 4 portas, conversível '42; um Ford '32 e uma misturada de MG com Jaguar. Nunca o fiz. Meu caminho de motorização passava por velhos DKWs e Gordinis. Que eu vivia consertando - e não gostava. Havia acabado de comprar um FNM 2.000, ótimo para um advogado recém formado, e não queria voltar na escala. Ficou mal parado.
Para consertar, resolvi procurar um Ford Modelo T, um mito. Achei num inventário e o Lee muito auxiliou com orientações. O segundo foi um Fordor, comprado ao Fernando Rossi, e daí em diante, definitivamente inoculado pelo virus antigomobilista perenis, deu no que deu.
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Roberto Nasser X Cenário Nacional |
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O Lee passou, a contragosto, em 1975. O movimento perdeu a mola mestra. Haviam colecionadores, acervo, mas a movimentação era lenta. Ser colecionador não tinha uma aura democrática e era identificado como uma coisa blasée, de ricos e ociosos. Imagem falsa e que alguns investiam nela.
Anos depois, reuni gente para criar o Veteran de Brasília.
E descobri, por convívio maior, que as necessidades eram superiores ao meu julgamento. E entendi que faltava uma dedicação profissional ao negócio. Avisei ao pessoal do meu escritório que automóveis antigos eram os mais novos clientes. e que queria ajuda, idéias, providências e acompanhamento - bem democrático.
Assim nasceu a primeira viagem internacional para colecionadores - coloquei 50 pessoas num Boeing e aterrissamos em Buenos Aires. No vôo provoquei o Clube do Fordinho a realizar um raid de longa duração. Toparam e fizemos S Paulo - Brasília de Ford A. 55 automóveis quebrando o mito que carro antigo quebra.
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Roberto Nasser X Conquistas legais X Placa Preta |
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Conseqüência de ser um consultor periférico ao poder central. Para fazer o Raid tive que buscar autorizações em dois ministérios. Afinal, os carros não se enquadravam no Código de Trânsito. Fui atrás e consegui o apoio da Ford. Ter uma multinacional do automóvel endossando a viagem era importante, tanto para apresentar o poder divulgador do antigomobilismo quanto como aval.
À chegada em Brasília, convidei os dois ministros para receber a caravana. A ambos entreguei um requerimento solicitando a criação de um enquadramento especial no código - uma proposta antiga, do próprio Lee - e a de isenção de taxas e impostos;
Foi aí que a placa preta começou no Brasil, foi o marco documental, com carimbo e recibo. Com o clipping do noticiário debaixo do braço fui ao Confaz, o órgão do ministério da Fazenda que reúne secretários de fazenda dos estados. Buscava a isenção de IPVA. Não consegui. As decisões do Confaz devem ser unânimes e haviam secretários que pouca atenção deram à minha defesa. Fui ao de Brasília. E com a decisão daqui, enviei cópia a todos os clubes de então, colecionadores de lugares sem clubes e aos secretários de fazenda, mostrando como o DF resolvera problema. As decisões vieram em cascata.
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Qual a vantagem prática da placa preta? |
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Diferenciar. Mais que o veículo, o condutor. Tirá-lo da trilha do motorista de um velho bem econômico de transporte, e colocá-lo em via superior, a do mecenas preservador da história e da cultura. A do cidadão generoso que preserva a história. Ou seja, a mudança de enfoque. O antigomobilista de agora é reconhecimento como um útil ente cultural. O de antigamente tinha a imagem do rico ocioso.
Além desta separação, há outras igualmente importante: o veículo licenciado com a placa preta está isento de portar equipamentos tornados obrigatórios após sua produção - ou seja, ele preserva integralmente sua originalidade. Outra, para a qual ainda não se apercebeu o relevo, é o fato de estar isentos da inspeção de segurança veicular, que mandará para o ferro-velho boa parte da frota velha.

Nasser - Palestra sobre placa preta em Vitória
Sem orgulho, a nossa legislação é tão clara e prática, que surpreende a colecionadores do resto do mundo. A pedidos, já verti a legislação para Espanha, Argentina, Chile, Venezuela, Alemanha e clube da Califórnia.
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O que Roberto Nasser acha da importação dos antigos ? |
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Ótima, é uma exceção legal, todos os meus colegas advogados querem saber como se consegue medida como esta. Mas para mim é metade do caminho. A outra propus e acompanho, que é a proibição de exportações dos veículos antigos do Brasil. Há falsos automobilistas que vivem fazendo estes negocinhos, esta subtração ao nosso acervo. São uns lesa-pátria e deveriam ser repudiados por tais atos.
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Roberto Nasser acompanha o trabalho da FBVA ? |
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Não tenho acompanhado. apesar de ter sido a enzima que provocou sua criação, não tenho informações atualizadas. creio, entretanto, que poderia ser mais produtiva.

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Roberto Nasser e Fernando Siqueira durante palestra no X Encontro de Carros Antigos de Natal |
Desde que deixei a presidência, o número de colecionadores aumentou, também o de clubes, houve o surgimento de publicações especializadas; mas o montante de conquistas para o movimento e os antigomobilistas é inexplicavelmente menor do que as realizadas na minha gestão pioneira e curta.
- E sobre a Fundação Memória dos Transportes?
Como expliquei, o antigomobilismo é tratado como cliente no meu escritório. sempre há algum tema em análise, gestação, propositura e acompanhamento. Criou-se a Fundação Memória dos Transportes para ter voz institucional, e capacidade para propor, requerer, acompanhar.
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Roberto Nasser X
Museu do Automóvel de Brasília |
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Gostam de dizer que é o coroamento da vida antigomobilista. Ainda não é.
O Museu foi produto da consciência da necessidade de utilidade social para o antigomobilismo. Se você tem 100 carros e apenas 20 pessoas as vêem, seu valor para a comunidade é 1/5. Se você tem apenas um automóvel e circula com ele, leva menino para passear, criança para batismo, noivos a casamento, o número de pessoas atingido pela imagem do carro antigo, é muitíssimo maior. Ou seja, como agente de responsabilidade social você conta mais.
O Museu é pequeno, porém didático. Faz 4 exposições temáticas por ano e gira o público interessado. Conta histórias e situa os veículos no cenário da vida real. é um provocador de lembranças e um instigador no tema.
No último ano recebeu 15 mil pessoas. Público variado. De motoristas de taxi a embaixadores. De público comum a autoridades do primeiro escalão, ministros, parlamentares. E autistas; e pessoas com necessidades especiais; da melhor idade; e alunos. Faz cursos, tanto para colecionadores quanto na formação de mão de obra. E tem a maior biblioteca especializada do país.
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Qual o perfil de Roberto Nasser como colecionador
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Um apreciador da história e da tecnologia. Assim, tento reunir o que melhor exprimiu a avulsão da criatividade brasileira na primeira década da indústria. Era a época de termos recebido apenas produtos críticos para produzir. Veículos que já haviam saído de produção - como o Aero e o JK; a caminho, como o Simca; experiências expansionistas com produto inadequado, como os Renault Dauphine e Gordini; ou aventuras tropicais, caso dos VW e dos DKW. A engenharia nacional fez milagres. e este período deve ser contado.R
- Qual a ligação de Roberto Nasser com os nacionais?
De reverência. Tanta, que propus aos meus pares da direção da FBVA quando a dirigia, que os nacionais tivessem uma categoria própria e que pudessem ser premiados. Isto os trouxe à tona. E os meus colegas me brindaram com a escolha dos Clássicos Nacionais.
- Quais os Nacionais que Roberto Nasser reuniu?
Primeira intervenção de tecnologia, um Ford T, início dos anos '20, com carroceria Sporstman, da Cia Grassi.Acho que é a mais antiga demonstração de mão brasileira.
Depois, foquei nas raridades exclusivas - FNM TIMB; Onça; GT Malzoni; Brasinca GT 4200S; Vemag Fissore; Willys Limousine; Willys Gávea - o primeiro fórmula 3 brasileiro, o Alfa 2300 com motor número 1. Ganhei, recentemente, outras duas raridades: um IBAP Democrata e um Mc Laren Julia. Claro, busco o que o jornalista especializado Fernando Campos chama de "as esquinas da história do automóvel "aqueles que provocaram mudanças. Além dos Ford T e A, tenho Jeep Ford '42; MG TC '49; Cadillac Coupé de Ville '54. Procuro Citroën 11L e VW '53 2a. série. E Jaguar e Alfa,licenças do coração.

- Democrata - Palestra no
Brazil Classics Fiat Show 2006
em Araxá;
É uma belíssima história de coragem que tive a oportunidade de reunir e depurar...
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A família de Roberto Nasser
apóia esta movimentação toda ? |
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Diria que sim. Claro. E toda vez que ouço qualquer questão a respeito, primeiro me pergunto se não estou entrando em surto, gastando mais com museu, ampliando biblioteca e eventuais aquisições, que a minha capacidade de restaurar e usufruir.
- Família Nasser X Veículos Antigos
Vera, minha mulher me devolveu um Alfa GTV que eu havia presenteado. Disse, que eu aproveitaria mais. Sábia. Filipe, o mais velho, em eventos Alfa vai com Giulietta Spider. A menor, Isabella, é mais assumida. Conduz, bem, seu Isabella Borgward, com alavanca na coluna, primeira marcha não sincronizada. Exceto T, dirige qualquer antigo. É do ramo.
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Antigomobilismo na vida de Roberto Nasser é algo especial? |
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Muito. Dá a consciência de que os encontros são ocasião própria e generosa de fazer o que se gosta, rever e encontrar amigos. Do conhecimento que neste pais de injustiças, poucos são os grupos tão privilegiados como o nosso, onde valores, faturamentos, posses, são irrelevantes. Ter um Vemag ou um Bugatti habilita a entrada a este círculo e a matéria de troca são bons convívios e bons momentos. Acho uma perda de tempo haver eventuais desentendimentos, uns ciuminhos, umas intriguinhas, coisas tão menores ante a magnitude da amizade e do bom convívio.

Os veteraníssimos Nasser, Pacífico Mascarenhas (centro) e Og Pozzoli (esquerda)
Ofereceu-me, em paralelo, a reunião do esforço profissional com a êxito institucional. É muito bom fazer conquistas para um cliente multinacional, quase tanto quanto realizá-la para o antigomobilismo, e ver as benesses das medidas agregando pessoas e permitindo o desenvolvimento da atividade.
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Alguma queixa ou tristeza? |
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Não. Meu perfil é o fazedor. Toco a caravana, abro o caminho. Os latidos ficam para trás.
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Quais os planos de Roberto Nasser para o futuro? |
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Por pontos. O Museu começa a decolar. Está bem plantado, tem presença na administração federal, é referência como empreendimento privado e bem tocado sem verbas. O meu relacionamento internacional na área tem auxiliado.
O foco de agora não é aumentar o acervo. Isto vem ocorrendo por doações e as exposições temáticas são montadas, em parte maior, como acervo dos antigomobilistas brasilienses, que apóiam incondicionalmente o Museu.
O Carro do Brasil, pioneiro e corajoso evento limitado aos carros antigos vai para a quinta edição. Neste ano, na Esplanada dos Ministérios. E dá frutos. Seja pelo aproveitamento da metodologia, seja pelo multiplicar. Neste ano, em outubro, em Passo Fundo, RS, os irmãos Azambuja estão realizando o primeiro evento regional apenas com nacionais. É um desdobramento que muito me honra.
Pessoalmente tenho criado agenda para dar consultoria graciosa sobre antigomobilismo e realizar palestras sobre este tema. Falarei neste mês em João Pessoa, PB, no primeiro evento de seu clube em criação, e em Araxá sobre a História do Democrata.
Na área das conquistas legislativas há muito o que fazer. Atualmente administro o acompanhamento de duas propostas: no âmbito local a proibição da exportação de veículos antigos, e a redução da alíquota de importação dos antigos; e no âmbito internacional da que realizei ao Mercosul pleiteando a isenção de impostos para a importação de veículos antigos entre países membros. O governo argentino contra-propôs um imposto de 2%. Concordei. Deve sair logo.
Observação: Foto acima - No Museu do Automóvel de Brasília, designer e construtor Toni Bianco ( centro ), com o historiador Paulo Scali ( direita ) e Roberto Nasser.
Bianco, emocionado, revê o pioneiro Fórmula 3 que construiu para a Equipe Willys e imaginava desaparecido. Depois, fez palestra para os alunos da Universidade de Brasília.

Nasser com alguns participantes no X Encontro de Antigos em Natal