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Homenagem ao Antigomobilista - Agosto 2008 |
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Sebastião Cardozo |
O Portal AutoClassic no mês de agosto, orgulhosamente homenageia um dos maiores antigomobilistas do Estado do Rio de Janeiro.
Segundo alguns comentários do meio antigomobilístico, ele é um grande conhecedor e entusiasta da marca FORD - décadas de 20 e 30, tendo em sua coleção exemplares raros e impecáveis.
Seu nome é: Sebatião William Cardozo, pelo pouco que conheci no evento em Rio Bonito, demonstra ser exatamente o que aparenta: um homem simples, discreto e muito objetivo.
Geralmente, quando vai aos eventos não leva seus veículos pois a ostentação não é o seu forte. Sua coleção é para ser admirada por ele, pela família e pelos amigos.
Em suma, Sebastião Cardoso é um grande colecionador, detalhista em suas restaurações.
Conheça um pouco mais sobre sua fantástica história em nosso meio.
Meu nome é Sebastião William Cardozo. Nasci em Rio Bonito, no Rio de Janeiro, em 1950. Há 30 anos administro uma empresa que foi fundada pelo meu pai, José Cardozo da Silva. Fabricamos máquinas, como retificadoras de virabrequins e outras, que são utilizadas em retíficas de motores.
Meu primeiro envolvimento com carros foi em 1954, quando meu pai fabricou um jipinho e me deu de presente para que eu o usasse quando crescesse. Enquanto isso não acontecesse, ele próprio o usaria.
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| Sebastião William ao volante em 1954 |
Quem possui a antiga “Revista Automóvel”, edição publicada em outubro de 1954, poderá ver uma matéria sobre o jipinho.
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Em 1954, José Cardoso da Silva apresenta o jipinho ao presidente Getúlio Vargas em Volta Redonda |
Em função do interesse que o veículo despertou, ele fora apresentado ao presidente Getúlio Vargas, que se interessou pelo projeto de fabricar jipes maiores. Isso fez com que meu pai fabricasse mais dois protótipos e organizasse uma sociedade anônima para produzi-lo em série. Mas, com a morte do presidente e a demora na liberação dos recursos, José Cardozo da Silva acabou desistindo do projeto.
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Todos os veículos fabricados pelo seu pai permanecem com Sebastião William |
Em 1960, na oficina de retífica de motores de meu pai, eu era o manobrista de carros sem motores (cada carro que aparecia!). Nesta época comecei a aprender mecânica e em seguida a dirigir meu jipinho no dia a dia. Isso durou muitos anos.
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Em 1965, Sebastião William com amigos em Rio Bonito |
Eu gostava mesmo era de corridas de automóveis. Em meados dos anos 60, eu lia tudo que aparecia sobre corridas de carros e principalmente sobre Fangio.
Como eu sempre ia mal na escola, certa vez meu pai me disse que, se eu passasse de ano, me daria um Karmann Ghia! Eu respondi: não quero, mas aceito 20% do preço dele para comprar um Lancia. E ele respondeu: negócio fechado. Já estávamos no meio do ano e ele achava que eu não conseguiria o Lancia. O ano do carro era 1954, tipo barchetta, chassi tubular, carroceria farina em alumínio, motor preparado com equipamentos abarth, rodas raiadas, cubo rápido, carburadores Webber e etc. Ele estava muito esmerilhado, mas ainda em boa condição.
No final do semestre, o milagre aconteceu. Estudei como um louco e passei batendo nas traves.
O dono do Lancia o havia apanhado como parte do pagamento por um oldsmobille, não gostava do carro e estava há muito tempo querendo vendê-lo, mas não recebia oferta alguma. O único que apareceu fui eu: completamente duro! O jeito foi ele esperar e torcer para eu passar de ano. Quando lhe avisei que tinha passado e que, no final de semana, meu pai iria lhe procurar para pagar o carro, ele imediatamente me entregou o veículo. Ele disse: pode levar agora sem problema. Eu pulei no banco e fui embora.
Eu aprontei a noite toda nas estradas próximas a Rio Bonito e, no dia seguinte, o pai de um amigo perguntou ao meu pai se era verdade que ele havia me dado um caixão de alumínio e contou tudo, inclusive minha intenção de participar de corridas de carro.
Isso era tudo que ele temia. Tive que devolver o carro e pedir desculpas ao dono. Além disso, eu ainda fui obrigado a estudar em um colégio interno de padres. Mas isso só durou duas semanas.
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O Lancia 54 |
Muitos anos depois, em meados dos anos 70, fiz um galpão e montei uma oficina para construir ou modificar automóveis nas horas vagas. Acabei construindo um veículo acionado por um motor elétrico e carroceria de fibra de vidro usando o chassi, a suspensão e o diferencial que meu pai havia feito para um dos jipinhos. Construí também um jipe com motor de Chevette e pensava em fabricar outros veículos.
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O jipinho feito em aço e com motor de Chevette (1977) e
O carro elétrico em 1976 (foto menor) |
Como surgiu meu interesse pelo hobby
Em uma viagem a São Paulo, eu vi uma placa: Museu de Antiguidades Mecânicas de Caçapava. Vi e gostei muito. Logo pensei em doar meu jipinho, mas não tive coragem e acabei comprando meu primeiro carro antigo: um Chevrolet sedan 1939. Depois veio um Ford business coupe 1946 e muitos outros. Comprava o veículo e o melhorava, mas sempre aparecia um melhor. Isso me fazia vendê-lo e ir em busca do outro carro, prometendo ser a última aquisição.
Nesta época ainda havia muitos carros com seus proprietários originais. Lembro de ter comprado um packard 1938 em Realengo. Eu o comprei do proprietário que o havia comprado em 1940! Sua filha queria tirar aquele entulho da garagem. Eu vim no carro e percorri uns 100 km, e tudo sem o menor inconveniente. Comprei também um Cadillac coupe de ville no Méier e um Jaguar mk2 na Tijuca, ambos em um estado excelente.
Certa vez comprei um Willys Night 1928 de um amigo em Niterói. Era um carro completo, porém sem o motor original (Motor Night de camisas deslizantes). Fiquei uns cinco anos com ele sem restaurá-lo, porque queria encontrar um motor original. Até que um dia desisti e vendi o carro para um revendedor de São Paulo. Meses depois estava mostrando umas fotos para um amigo de Porto Alegre e de repente ele me disse: Willys Night 28?! Eu tenho um motor original e completo, você quer de presente?
Um jovem alemão que, havia fugido da Alemanha Oriental pelo esgoto, veio ao Brasil a passeio e comprou um Ford Phaeton 29 do meu sogro com a intenção de exportá-lo. Não conseguiu, mas ficou amigo da família e acabou me dando o carro que era muito ruim. Ele era vermelho e preto, todo torto e vazando óleo. Algum tempo depois, ele morreu num mergulho e a família pediu para eu restaurar o carro. Como eu não gostava de Modelo A, pedi ao meu amigo Joecir que fizesse uma reforma nele, já que uma restauração seria inviável, e assim foi feito.
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Quando o carro ficou pronto, organizaram um rali de Niterói até Conservatória. Ao todo o percurso seria de 250 km. Fui com o meu carro. Havia também mais uns 20 Ford modelo A, sendo que nenhum deles havia sido reformado. Aliás, para ser honesto, uns pareciam ter saído direto de um ferro velho. Havia também um coupe Ford 42 e um jeep Willys do mesmo ano, ambos em bom estado.
Fomos a uma velocidade acima do que seria razoável para aqueles fordinhos e todos foram e voltaram sem problemas. Mas o Jeep queimou a junta do cabeçote e ficou por lá. E o Ford v-8 também teve complicações, pois ferveu e teve problemas com a bomba de gasolina. É claro que defeitos podem acontecer em qualquer carro, mas foi nesse momento que o micróbio do fordinho me contaminou.
Em 1995 já fazia quase vinte anos que eu estava envolvido com carros antigos. Eu sempre os concertava à noite, aos sábados e aos domingos. Já havia me realizado com os antigos quando resolvi vender tudo. Só sobrou o fordinho que havia ganhado do alemão. Então, um amigo chamado Sérgio Nobre me informou acerca das facilidades que tinham sido criadas para a importação de literatura e pequenas peças. Sem maiores pretensões, comprei uns livros sobre fordinhos e percebi que havia muitos erros. Resolvi começar tudo de novo.
Como é o meu trabalho de restauração de um veículo antigo
Nesses últimos dez anos eu já restaurei seis fordinhos. É um carro muito simples. Para ele há uma grande oferta de peças novas e usadas, literatura e muitos veículos destruídos, onde sempre é possível aproveitar algo da parte mecânica. Isso possibilitou o desenvolvimento de ferramental e gabaritos, fato que torna a restauração do automóvel mais fácil e melhor.
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A restauração da pick-up durou 2 anos |
Procuro sempre que possível, antes de desmontar o carro, dar uma volta nele para verificar o câmbio. Isso para saber se ele está muito barulhento ou pulando a marcha, como está o diferencial e se o motor não está passando água. Em seguida, eu desmonto tudo.
O chassi está quase sempre empenado. Quando as travessas estão soldadas ou com reforço, eu retiro todos os rebites, jateio e monto o chassi com boas travessas.
O chassi é rebitado à quente usando um martelete pneumático e um suporte chumbado no chão para escorar os rebites. Este suporte é idêntico aos que eram usados nas concessionárias na época. Depois, eu verifico seu alinhamento e ele fica pronto para a pintura.
Depois de desmontado o diferencial, eu rebaixo as pontas onde trabalha o rolamento do cubo e o encamiso em aço. Em seguida, ele é retificado para a medida standard. Eu também faço novos cubos em aço conforme o desenho original. Já os semi-eixos eu os corto ao meio e faço um novo cone, este compatível com o cubo e com o novo rasgo de chaveta.
Se o câmbio estiver em boa condição, é só trocar os rolamentos e o eixo da ré, retrabalhar o furo do eixo do carretel, onde costuma vazar muito óleo, trocar os eixos da tampa e as semi-esferas (plungers) com molas e ajustar a alavanca. Depois é só verificar a folga da cruzeta, trocar o rolamento do tubo de torque, verificar sua folga e a caixa de engrenagem do velocímetro, que trabalha neste local.
Quanto ao eixo dianteiro, quando o alojamento do pino mestre está bom, eu o desempeno a frio e o coloco num gabarito onde deixo dois graus negativos. Os braços de articulação da direção e o braço pitman têm suas esferas trocadas usando reparos novos; os amortecedores e suas esferas de fixação também são novas.
Os freios são embuchados. Em seguida, eu troco grande parte das peças móveis e os tambores que possuem desgaste acima de 3 milímetros. Os tambores são torneados em seu próprio cubo. O raio dos patins/lona é ajustado com o raio do tambor, e isso faz a diferença em ter freio ou não.
O motor é todo retificado. É dado um cuidado na lubrificação e no mancal trazeiro, onde costumam acontecer vazamentos. A embreagem é retificada na face do volante e o platô é recondicionado em firmas especializadas.
Depois de pintar, zincar e montar o chassi, eu o coloco em uma plataforma de madeira que irá possibilitar dirigi-lo e fazer as regulagens necessárias. Isso evita surpresas quando o carro estiver todo pronto.
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Interior do coupe |
Quanto à carroceria, eu faço o procedimento padrão: raspagem ou jateamento e lanternagen. Sempre faço a lanternagem com o meu amigo Jeocir. Depois de alinhado e montado, eu desmonto tudo e escovo a lataria. Em seguida envio a carroceria para a pintura, que tenho feito com o Nelson da Nelcar no Rio; este faz um ótimo trabalho. Algumas peças, como as rodas, eu mando pintá-las pelo sistema de eletrostática, pois elas resistem melhor às trocas de pneus. Outro detalhe: devem-se usar os parafusos originais ou novos, mas na mesma dimensão e tipo de cabeça. Na carroceria do modelo há muitas porcas cravadas na lataria, que originalmente usavam parafusos 7/32. Como este parafuso foi ficando difícil de ser encontrado, algumas carrocerias tiveram as roscas alteradas para ¼. Por isso é necessário descravar essas peças (clinch nuts) e cravá-las novamente.
Há uns cinco anos, eu restaurei um Simca Emisul que foi do meu pai. As partes de baixo das portas tiveram que ser refeitas. Depois de tudo pronto e limpo, eu as enviei para uma empresa de tratamento anti-ferrugem de chapa de carros novos por imersão. É um trabalho extremamente barato e acho que vale muito a pena ser feito.
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| Ford Roadster 1931 |
Conselhos para quem está começando
Eu diria que é preciso muita calma. Os carros não irão acabar. O ideal é definir o automóvel desejado, conversar com pessoas que o tenham sobre a disponibilidade de suas peças e se informar em publicações especializadas como era o veículo. É preciso também comprar sempre o que estiver em melhor estado. E cuidado com as raridades que estão desmontadas, já que carros raros significam também peças raras, e com isso você poderá se decepcionar.
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Ford Phaeton Deluxe 1931 |
Encontro em Rio Bonito
Há muito tempo eu já pensava em organizar um encontro de carros antigos aqui em Rio Bonito, mas as dificuldades apareciam e acabavam por adiar o evento. Desta vez resolvi fazer de qualquer jeito.
Reconheço que pegar um antigo numa BR bastante movimentada e cheia de caminhões, principalmente em um domingo à tarde, não é tarefa fácil. Existem poucos Muricy. Então pedi à Prefeitura da cidade um caminhão plataforma dez dias antes do evento e eles atenderam ao meu pedido.
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| Ford Coupe 1931 e Ford Slant Windshield 1931 |
A idéia foi conseguir 20 carros dos anos 30 aos 50 que pertencem a amigos meus para levar para um galpão fechado. Todo transporte foi acompanhado pelo antigomobilista Sérgio Gimenez. Já os proprietários chegariam no domingo com seus carros de passeio, pegariam os seus antigos limpos e iriam para o evento à 1 km do local. Na volta seria feita a operação inversa. Esses carros junto com os meus já resultaria em um bom evento para uma pequena cidade do interior do Rio de Janeiro. E assim que foi feito. Eu só temia que chovesse no dia do evento, o que não ocorreu. A chuva ocorreu uma semana antes, fato que impossibilitou que eu conseguisse trazer todos os carros que queria. Mesmo assim, o evento superou as minhas expectativas.
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O Simca Emisul 1966, que fora do meu pai e que também usei quando novo, agora está restaurado |
Projeto em andamento
Estou há dois anos trabalhando num Ford modelo A 400 conversível sedan de l931. Seu ex-dono desistiu de terminar a restauração faz 30 anos. O carro estava todo desmontado, algumas partes foram refeitas em desacordo com o modelo e faltava partes importantes e difíceis de serem encontradas. Afinal, atualmente existem pouco mais de 300 modelos no mundo, ou seja, eu comprei tudo aquilo que não se compra. Mas no final do ano sua restauração estará completa.
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Escovando e pintando a carroceria do Ford A 400 |
Encontros de carros
O Encontro de Araxá é nível internacional. Imperdível!
Eu fui a poucos encontros de carros no exterior. O evento que acontece em Hershey, nos Estados Unidos, é o que mais gosto. Em Hershey é possível ver de tudo e sentir a grandiosidade do mundo do carro antigo.
Além disso, eu nunca fui, mas gostaria muito de ir às corridas de carros antigos que acontecem na Inglaterra.
Os carros nacionais que mais gosto são os que foram fabricados até 1966. O Interlagos tinha as linhas, o Simca tinha o ronco, mas o grande carro desta época, em minha opinião, foi JK.
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Encontro com Fangio na Argentina |
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O primeiro veículo fabricado por Henri Ford e o primeiro veículo lunar, ambos expostos no Museu da Ford em Detroit |
O Portal AutoClassic parabeniza, Sebastião Cardozo por sua grande contribuição no antigomobilismo brasieleiro.
Desejamos sucesso em seus projeto. Muita saúde , proteção divina e que você continue com esta constante atividade no meio antigomobilista.
Um forte abraço,
Teresa Gago
Equipe Portal AutoClassic
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